Lando Norris voltou a ser protagonista, não apenas pela sua velocidade em pista, mas pela recusa assumida do tradicional perfil “cruel” que tantos campeões de Fórmula 1 cultivaram ao longo das décadas. O britânico, que se sagrou pela primeira vez campeão mundial no final da época passada em Abu Dhabi, revelou esta semana como a conquista do título transformou a sua abordagem à competição, sem o afastar da sua essência tranquila e ética.
Norris, piloto da McLaren e actual detentor do título mundial, destacou-se no mais recente Grande Prémio do Mónaco, no Circuito de Monte Carlo, onde terminou no pódio apesar das dificuldades do novo monolugar MCL40A com motor Mercedes. O britânico cruzou a meta em terceiro, a 7,2 segundos do vencedor, Max Verstappen (Red Bull), numa das provas mais exigentes do calendário de 2026. O seu melhor tempo de volta, 1:13.119, foi o segundo mais rápido da corrida, sublinhando o ritmo competitivo do McLaren, mesmo num circuito onde as ultrapassagens são quase impossíveis. Este resultado mantém Norris na luta pelo topo do campeonato, agora a apenas 14 pontos do líder, Verstappen, após oito provas disputadas.
O impacto do título mundial foi inevitável: “Sinto-me mais relaxado porque passei 20 anos a tentar alcançar uma coisa e consegui-o. Posso morrer feliz agora”, confessou Norris, em entrevista ao podcast oficial da Fórmula 1, Beyond the Grid. No entanto, o piloto de 26 anos deixou claro que a motivação permanece intacta: “A fome continua lá. O sucesso é viciante. É uma droga.” Consciente das limitações actuais da McLaren, não escondeu algum realismo: “Sou realista quanto ao facto de, de momento, não termos uma oportunidade real para competir por poles e vitórias. Se o fizermos, então incrível, mas as minhas expectativas não são essas de momento.”
A ética desportiva de Norris voltou ao debate, sobretudo pela recusa em adoptar uma postura implacável, mesmo quando a pressão do título é máxima. Recordou o episódio do Grande Prémio da Hungria, há dois anos, quando cedeu a posição ao colega de equipa Oscar Piastri, um gesto que, segundo o próprio, teve impacto directo no sucesso colectivo da McLaren: “Se eu tivesse ganho essa corrida, a McLaren não teria alcançado o que alcançou nos últimos anos, o que provavelmente significa que não teríamos ganho o campeonato de construtores, nem eu teria ganho o mundial de pilotos.” Questionado sobre o tradicional individualismo dos campeões, Norris foi peremptório: “Não creio que seja preciso ser uma pessoa cruel, excessivamente agressiva ou egoísta para vencer na Fórmula 1.”
O britânico reafirmou ainda a sua lealdade inabalável à McLaren: “Para já, estou fortemente comprometido com a McLaren, sendo a única equipa com quem alguma vez vou querer estar. Sinto que eles são a minha família.” O futuro, contudo, mantém-se em aberto, caso as vitórias deixem de surgir: “O meu objectivo é estar com a McLaren para sempre. Mas também adoro vencer. Por isso, até que esse momento chegue, nunca se sabe. Mas mesmo se não estiver a ganhar, sabem, eu não ganhei durante seis anos. Poderia ter ido para sítios diferentes e não fui.”
A transformação de Norris enquanto líder coincide com a ascensão de Andrea Stella a director de equipa na McLaren, uma figura que o campeão não poupou nos elogios: “Cresci 100% como piloto desde que ele se tornou diretor de equipa. Resposta fácil, fácil.” Destacou ainda a capacidade de Stella para extrair o melhor de cada elemento: “Honestamente, acho que o Andrea é uma das pessoas mais inacreditáveis que alguma vez conheci que consegue gerir uma equipa, tirar o máximo de uma equipa, compreender as pessoas — eu incluído — e saber como extrair o máximo das pessoas.”
Com este resultado no Mónaco, Norris reforça a posição da McLaren no campeonato de construtores, onde ocupa o segundo lugar, agora a 28 pontos da Red Bull. O próximo desafio será o histórico Grande Prémio do Canadá, no Circuito Gilles Villeneuve, uma pista tradicionalmente favorável à McLaren. Uma boa prestação poderá aproximar ainda mais Norris do topo da classificação, relançando a luta pelo título mundial. No entanto, o britânico mantém os pés bem assentes no chão, determinado a provar que é possível vencer sem sacrificar a integridade ou as relações humanas dentro e fora do paddock. O novo campeão mundial de Fórmula 1 não só desafia o status quo, como redefine o que significa liderar na era moderna do desporto automóvel.
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