O desaire da Ferrari no Grande Prémio da Áustria, onde o SF-26 voltou a expor as suas fragilidades, não abalou o optimismo da Scuderia para Silverstone. Apesar das expectativas elevadas após a introdução de uma unidade motriz revista, a formação italiana viu-se novamente afastada dos lugares cimeiros na corrida, mas mantém a esperança de regressar à luta pelos pódios no histórico circuito britânico.
Em Spielberg, a Ferrari apostou as fichas numa evolução do motor, a primeira permitida pela nova janela de desenvolvimento aberta pela FIA. Na sessão de qualificação de sábado, Charles Leclerc conseguiu surpreender ao colocar o SF-26 na terceira posição da grelha, apenas a 0,273s do tempo da pole position de Max Verstappen (Red Bull), enquanto Carlos Sainz alinhou logo atrás, em quarto, com uma diferença de 0,326s. Contudo, a agressividade do acerto escolhido, focado na velocidade de ponta, revelou-se uma faca de dois gumes: se na qualificação mascarou algumas debilidades, na corrida tornou-se claro que o desgaste dos pneus era incomportável, impedindo qualquer hipótese de lutar de igual para igual com os rivais da Red Bull e McLaren.
Durante a prova, Leclerc e Sainz perderam rapidamente contacto com o grupo da frente. As paragens antecipadas, motivadas pela degradação acentuada dos pneus médios, não trouxeram qualquer vantagem estratégica. Na tentativa desesperada de recuperar terreno, a Ferrari arriscou com pneus macios nos últimos stints, mas as melhorias foram praticamente nulas: Leclerc terminou em sexto lugar, a mais de 48 segundos do vencedor Max Verstappen, enquanto Sainz cruzou a meta em oitavo, perdendo inclusive posição para George Russell (Mercedes) e Oscar Piastri (McLaren). A diferença para o topo ficou bem patente nos tempos das voltas rápidas: Verstappen assinou a melhor volta em 1:07.012, enquanto Leclerc não conseguiu baixar de 1:08.145 na fase final, evidenciando a incapacidade do SF-26 em manter ritmo competitivo com pneus degradados.
Este resultado representa um duro golpe nas aspirações da Ferrari no Campeonato do Mundo de Fórmula 1. No rescaldo do Grande Prémio da Áustria, Leclerc manteve-se no quarto lugar do Mundial de Pilotos, agora com 15 pontos de atraso para Norris (McLaren), enquanto Sainz caiu para sexto, ultrapassado por Piastri. Entre as equipas, a Ferrari viu a McLaren consolidar a vice-liderança no Campeonato de Construtores, aumentando a diferença para 22 pontos. A pressão interna sobre a equipa técnica liderada por Frédéric Vasseur é cada vez maior, sobretudo porque o início de temporada promissor parece agora distante.
Após a corrida, Vasseur reconheceu as dificuldades: “Sabíamos que a gestão dos pneus seria um desafio, mas não esperávamos um cenário tão penalizador. O acerto agressivo funcionou na qualificação, mas na corrida pagámos caro”, sublinhou o chefe de equipa francês. Charles Leclerc, visivelmente frustrado, acrescentou: “Foi impossível defender-me. Perdemos aderência demasiado cedo, não havia nada a fazer. Precisamos de perceber exactamente o que correu mal para não repetir estes erros.” Carlos Sainz, por seu lado, admitiu que “a estratégia era arriscada, mas não tínhamos muitas alternativas. Silverstone é uma pista diferente e acredito que podemos regressar ao nosso melhor nível”.
Olhando para Silverstone, a Ferrari tem razões para acreditar numa retoma. O histórico circuito britânico valoriza não só a potência do motor, mas também o equilíbrio aerodinâmico e a estabilidade em curvas rápidas — precisamente áreas onde o SF-26 brilhou, por exemplo, em Barcelona. Se a equipa conseguir replicar o desempenho mostrado noutros traçados de alta velocidade e corrigir os problemas de degradação, a luta pelo pódio volta a ser um objectivo realista. A meteorologia mais amena prevista para o fim-de-semana em Inglaterra poderá igualmente ajudar a controlar a temperatura dos pneus, um dos calcanhares de Aquiles na Áustria.
O próximo capítulo deste duelo acontece já no Grande Prémio da Grã-Bretanha, onde a Ferrari aposta em recuperar o terreno perdido para McLaren e Red Bull. O plantel italiano precisa urgentemente de somar pontos pesados para manter a pressão na luta pelo segundo lugar do mundial. Com a temporada a entrar na fase decisiva, cada corrida ganha peso acrescido — e, para a Ferrari, Silverstone pode ser o palco do tão desejado regresso à ribalta.
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