A Toyota regressou ao lugar mais alto do pódio nas 24 Horas de Le Mans, conquistando a sua sexta vitória na emblemática prova de resistência, num duelo renhido entre três fabricantes de Hypercar que terminou com apenas 32 segundos a separar os protagonistas. Kamui Kobayashi cruzou a linha de meta ao volante do Toyota GR010 Hybrid n.º 7, com uma vantagem de 10,913 segundos sobre o BMW M Hybrid V8 n.º 20 da Team WRT, pilotado por Robin Frijns, que assim impediu a dobradinha da marca nipónica.
O duelo final foi decidido nas últimas voltas, depois de Frijns executar uma ultrapassagem impressionante ao Toyota n.º 8 de Sébastien Buemi, montado em pneus Michelin triplamente utilizados, pelo exterior das Porsche Curves a 47 minutos do fim. Seguiram-se as derradeiras paragens nas boxes, onde Kobayashi e Frijns optaram por reabastecimentos rápidos apenas de energia, enquanto Buemi trocou para quatro pneus novos, perdendo um tempo crucial. O Cadillac V-Series.R n.º 12 da Hertz Team JOTA, com Will Stevens ao volante, atrasou a sua última paragem em dez minutos, regressando à pista em quarto e garantindo assim o duplo pódio para a Toyota, com Buemi a fechar o top 3.
Esta vitória marca o regresso da Toyota ao topo em Le Mans, depois do triunfo em 2022. Kobayashi e Mike Conway tornaram-se bicampeões da clássica francesa, partilhando o cockpit com Nyck De Vries, que celebrou o seu primeiro sucesso absoluto em Le Mans, ao terceiro ataque à categoria principal. Na primeira fase da corrida, ambas as Toyota beneficiaram de uma estratégia ousada, com Buemi a parar ao fim de apenas nove voltas, tal como Conway, subindo posições graças a reabastecimentos mais curtos e partindo de posições modestas entre os 18 Hypercar em pista.
A corrida foi marcada por múltiplas trocas de liderança entre Toyota, BMW e Cadillac, com penalizações e incidentes a baralharem as contas. Ryo Hirakawa, no Toyota n.º 8, viu-se penalizado com uma passagem pelas boxes por infração sob Full Course Yellow, perdendo terreno para o carro-irmão e sofrendo ainda com reparações ao suporte do tambor de travão dianteiro esquerdo. O BMW n.º 20, ostentando as cores da Shell, e o Cadillac n.º 12 estiveram em vantagem até à segunda entrada do safety car, motivada por um violento acidente de Ayhancan Guven no Porsche 911 GT3 R Evo n.º 91 da Manthey, a cerca de seis horas do fim. Esse neutralizar da corrida eliminou a vantagem de 30 segundos de Frijns sobre Norman Nato (Cadillac) e de 45 segundos sobre Kobayashi.
Após a neutralização, Brendan Hartley, no Toyota n.º 8, ultrapassou Nato para a liderança, mas De Vries aproveitou as dificuldades do neozelandês para assumir o comando meia hora depois. O trio da BMW – Frijns, Sheldon van der Linde e Rene Rast – assegurou o primeiro pódio absoluto da marca alemã em Le Mans desde a vitória de 1999. Buemi, Hartley e Hirakawa garantiram o terceiro lugar, à frente de Stevens, Nato e Louis Deletraz, cujo ritmo noturno não resistiu ao calor do dia.
A Ferrari AF Corse, vencedora das três últimas edições, não conseguiu lutar pela quarta vitória consecutiva. O Ferrari 499P n.º 51, com Alessandro Pier Guidi, James Calado e Antonio Giovinazzi, terminou em quinto, apesar de uma penalização por passagem pelas boxes após Pier Guidi se envolver num toque com o Oreca n.º 9 da Proton Competition na Curva Dunlop. O Ferrari saiu ileso do incidente. O Alpine A424 n.º 35, conduzido por Ferdinand Habsburg, Charles Milesi e António Félix da Costa, foi sexto, na última participação planeada da marca francesa em Le Mans. O Alpine n.º 36 perdeu quase duas voltas devido a uma paragem na garagem quando Fred Makowiecki estava ao volante.
A AF Corse viu ainda o Ferrari satélite n.º 83 de Robert Kubica, Yifei Ye e Phil Hanson cair para sétimo na última hora. O Aston Martin Valkyrie n.º 007 da Heart of Racing Team, com Tom Gamble, Harry Tincknell e Ross Gunn, terminou em oitavo, enquanto uma avaria na suspensão do n.º 009 de Alex Riberas relegou-o para 14.º. As aspirações da Cadillac da Wayne Taylor Racing ficaram pelo caminho após quatro penalizações por excesso de velocidade em zona de neutralização, três delas durante o turno matinal de Filipe Albuquerque, acabando a equipa portuguesa com Ricky e Jordan Taylor em nono.
Os Peugeot 9X8 nunca entraram na luta, terminando fora dos pontos em 12.º e 13.º. O Genesis GMR-001 n.º 19, de Mathieu Jaminet, Dani Juncadella e Paul-Loup Chatin, foi o único da marca coreana a ver a bandeira de xadrez, em 13.º, após vários contratempos. Já o Genesis n.º 17 desistiu a sete horas e meia do fim por falha na suspensão dianteira direita. O Cadillac n.º 38 da JOTA, também candidato à vitória, abandonou por problemas de direção assistida pouco depois da metade da prova. O Ferrari n.º 50 parou durante o safety car devido a problemas eléctricos, depois de já ter perdido oito voltas por uma avaria no extintor, enquanto o BMW n.º 15 da WRT, que partira da pole position com Dries Vanthoor, também foi atrasado por problemas eléctricos e um furo, terminando longe do top 10.
No rescaldo, Kamui Kobayashi, visivelmente emocionado, destacou: “Esta vitória é resultado de um trabalho de equipa incansável e de uma estratégia perfeita. Le Mans é sempre uma batalha até ao fim.” Robin Frijns, da BMW, salientou a ultrapassagem decisiva: “Sabia que tinha de arriscar. O Buemi defendeu bem, mas consegui encontrar espaço por fora. Senti que era agora ou nunca.” Mike Conway, bicampeão, referiu: “Sabíamos que tínhamos de ser pacientes e atacar nos momentos certos. Foi um verdadeiro teste de resistência e inteligência.” Do lado da Ferrari, Pier Guidi comentou: “Foi uma corrida difícil. A penalização prejudicou-nos, mas a equipa nunca desistiu.”
Com este resultado, a Toyota reforça a sua posição no Campeonato do Mundo de Resistência, somando pontos valiosos para a luta pelo título. A BMW confirma o regresso ao topo da resistência mundial, enquanto a Cadillac se mostra cada vez mais competitiva. Em sentido inverso, a Ferrari terá de reagir já na próxima ronda, as 6 Horas de Monza, para manter vivas as aspirações ao campeonato. Segue-se agora uma pausa curta, antes do regresso à ação em Itália, onde a rivalidade entre Toyota, BMW, Ferrari e Cadillac promete reacender-se numa temporada cada vez mais imprevisível.
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