A Ferrari viu o seu domínio em Le Mans chegar ao fim, mas saiu da mítica prova das 24 Horas com a sensação de missão cumprida, ao colocar o 499P número 51, pilotado por Alessandro Pier Guidi, James Calado e Antonio Giovinazzi, na quinta posição, a apenas 2 minutos e 22 segundos do vencedor. Apesar de um défice notório de andamento face à concorrência, a casa de Maranello conseguiu um resultado limpo, sem grandes percalços, e superou as expectativas internas para um fim de semana em que nunca teve o melhor carro em pista.
O Grande Prémio de Le Mans, integrado no Campeonato do Mundo de Resistência FIA, ficou marcado pela vitória da Toyota, a primeira desde 2022, com o renovado GR010 Hybrid. A Ferrari, vencedora das últimas três edições com o 499P, viu a sua melhor esperança materializar-se no quinto lugar, atrás dos dois Toyota, do Cadillac e do BMW M Hybrid V8 mais competitivo. O carro número 51 terminou como o melhor Ferrari, enquanto o número 50 foi forçado ao abandono devido a um problema elétrico terminal, depois de já ter perdido terreno significativo devido à necessidade de substituir o extintor de incêndio. Já o Ferrari número 83, da equipa satélite AF Corse, vencedor em 2023, terminou em sétimo, atrás do Alpine número 35, evidenciando as dificuldades do construtor italiano neste fim de semana.
Mauro Barbieri, responsável de desempenho e regulamentos da Ferrari, fez um balanço realista, mas satisfeito: “Desde o dia de testes, percebemos que havia sete carros claramente à nossa frente, e provavelmente mais dois Alpines a ameaçar. Portanto, terminar em quinto com o melhor carro, em vez de décimo, demonstra que fizemos o máximo possível. Tínhamos o quarto ou quinto melhor pacote, estivemos a par do Alpine e as últimas seis horas provaram-no, já que rodámos com ritmo semelhante ao número 35, que acabou por ultrapassar o nosso número 83.” Barbieri sublinhou que “os carros à nossa frente estavam noutro nível e não conseguimos apanhá-los.”
O responsável da Ferrari explicou ainda que o défice de tempo não provinha da velocidade de ponta, mas sim da aceleração, sobretudo nas curvas lentas, onde o 499P perdia décimos preciosos por volta. Apesar da falta de velocidade pura, Barbieri destacou a evolução interna ao nível da disciplina em pista: “Este ano, demos mais importância a evitar penalizações. Explicámos aos pilotos que quanto menos tempo perdermos com penalizações, mais fácil é somar pontos e lutar na frente. Recuperar tempo perdido na boxe, seja por um drive-through ou por cinco segundos extra, é um pesadelo. Analisámos caso a caso a corrida do ano passado durante o inverno e reforçámos a mensagem: aprender com cada evento é o caminho para melhorar.”
Em termos disciplinares, apenas Pier Guidi viu uma penalização imposta aos Ferrari oficiais, ao envolver-se num toque com Jonas Ried (Proton Competition LMP2) nas horas da noite, enquanto o número 83 foi penalizado com cinco segundos na boxe devido a um unsafe release. Barbieri mostrou-se satisfeito com esta evolução: “O balanço é francamente positivo. Mostrámos que conseguimos evitar erros que no passado nos custaram caro.”
Sobre a performance da Toyota, Barbieri admitiu que não foi surpreendido pelo regresso da marca nipónica aos triunfos: “Já nos testes, a Toyota deixou claro que estava forte. O ano passado foi uma excepção, tiveram muitos problemas, mas sabíamos que, este ano, voltariam a ser protagonistas.” O responsável italiano destacou ainda a estratégia agressiva da Toyota no início da corrida, ao antecipar as primeiras paragens e ganhar posição em pista, permitindo ao número 8 de Sébastien Buemi construir uma vantagem decisiva. No entanto, Barbieri reconheceu que a Ferrari não teria beneficiado de imitar essa abordagem: “A estratégia da Toyota é eficaz se tiveres andamento em pista limpa. No nosso caso, a melhor opção era tentar seguir no cone de ar dos rivais, mas rapidamente percebemos que não conseguíamos acompanhar.”
No capítulo dos pneus, a Ferrari apostou no composto duro para o final da corrida, face às elevadas temperaturas do asfalto: “Foi claramente o melhor pneu para nós, com a pista a rondar os 50 graus Celsius. Testámos várias opções ao longo da semana e não tenho dúvidas de que fizemos as escolhas certas”, garantiu Barbieri.
Com este resultado, a Ferrari mantém-se na luta pelos lugares cimeiros do Mundial de Resistência, mas vê a Toyota recuperar terreno e relançar a rivalidade. O próximo desafio será já em Interlagos, onde o equilíbrio de forças promete novos capítulos na intensa disputa pelo título Hypercar. A equipa italiana sai de Le Mans de cabeça erguida, consciente de que, apesar das limitações técnicas, a solidez, a disciplina e a fiabilidade continuam a ser armas fundamentais numa época onde cada décimo conta.
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