Alessio Rovera dominou a Superpole e garantiu uma pole position fulgurante para a AF Corse, no Ferrari 296 GT3 Evo n.º 51, ao bater toda a concorrência nos quatro segmentos da sessão decisiva das 24 Horas de Spa. O italiano não só arrebatou o melhor tempo, como deixou a concorrência a mais de três décimos, num dos dias mais escaldantes de sempre na pista belga, lançando as bases para aquela que promete ser uma das edições mais exigentes da clássica de resistência.
A sessão de Superpole foi o ponto alto da sexta-feira no lendário circuito de Spa-Francorchamps, com Rovera a registar um tempo de 2m16.877s, relegando o Porsche 911 GT3 R Evo da Manthey EMA para a segunda posição, a 0,312 segundos. O piloto da Ferrari, que partilha o carro com Nicklas Nielsen e Antonio Fuoco, parte assim na frente para a 79.ª edição da maratona belga, integrada no GT World Challenge Europe. O top 3 da grelha ficou fechado pelo BMW M4 GT3 da ROWE Racing, com uma diferença já superior a meio segundo para a pole position. No total, 67 carros alinham para esta edição, com as penalizações e mudanças de motor a baralhar várias posições da grelha.
O resultado de Rovera ganha ainda maior destaque pela forma como o próprio minimizou expectativas antes de entrar em pista. “Não estava confiante quando saí das boxes, porque sentia que não havia aderência”, confessou o italiano logo após garantir a pole. “Mas, como estava tanto calor, não havia aderência para ninguém. Era igual para todos.” Estas condições extremas têm sido um dos grandes temas do evento, com temperaturas acima dos 30ºC a afectar pilotos, equipas e pneus, obrigando a estratégias mais conservadoras e à gestão criteriosa dos stints de condução.
No plano institucional, a sexta-feira ficou marcada pela conferência anual da SRO Motorsports Group, onde Stephane Ratel, fundador da organização, abordou temas como o futuro dos FIA Motorsport Games e o projecto GTX para carros GT eléctricos e experimentais, ambos actualmente suspensos. “Talvez realizar os Jogos de dois em dois anos seja demasiado ambicioso, porque é um evento muito grande para organizar. Talvez de quatro em quatro anos, não sei, mas de momento está tudo em standby”, explicou Ratel. Sobre o GTX, lamentou o fecho do Circuito Enna-Pergusa, que inviabilizou a realização prevista para o Targa Florio Revival. “Estava tudo alinhado com uma grande promotora e empresa de media, mas sem circuito não se pode avançar”, acrescentou.
Pierre Fillon, presidente do Automobile Club de l’Ouest, foi nomeado starter oficial da 79.ª edição das 24 Horas de Spa, sublinhando a crescente colaboração entre promotores de grandes provas para “fazer crescer o desporto automóvel de GT a nível mundial”. Ratel anunciou ainda que a SRO passa a ser apoiante da Obiettivo3, organização criada por Alex Zanardi para apoiar atletas paralímpicos, uma homenagem ao piloto italiano falecido em Maio.
No paddock, a meteorologia domina as conversas. Maxime Martin, vencedor por duas vezes em Spa e piloto da GetSpeed Mercedes-AMG GT3 Evo, alertou: “Dependendo das condições, vai ser um desafio conseguir fazer duplos stints; provavelmente vamos optar por turnos simples por causa do calor e da recuperação.” Também Luca Engstler, piloto oficial da Lamborghini, admitiu: “É muita pressão para o homem e para a máquina, também para os mecânicos. Já me sinto como se tivesse feito uma corrida de 24 horas ontem!”
Entre as histórias de resistência, destaca-se Andy Pilgrim, agora consultor da GetSpeed, recordando a sua vitória em condições extremas no Texas, em 2000, ao volante do Corvette C5-R. O britânico foi forçado a cumprir um duplo turno com temperaturas superiores a 37ºC, enquanto o colega Ron Fellows era arrefecido com mangueiras nas boxes. Doug Fehan, então responsável do programa Corvette Racing, foi perentório em direto: “Ele vai aguentar, é praticamente um réptil!”
Algumas ausências marcaram igualmente esta edição, nomeadamente Jake Hill, campeão britânico de turismos em 2024, que viu a sua participação cair por terra devido a dificuldades logísticas e de alinhamento de pilotos. “Tentámos até ao último minuto fazer funcionar, mas não foi possível, especialmente numa altura do ano tão atarefada”, explicou Hill, que agora centra atenções na Nürburgring Langstrecken-Serie e na Michelin 24H Series com a Era Motorsport.
No que diz respeito a penalizações, vários carros foram obrigados a partir da via das boxes devido a substituição de motores, nomeadamente os Porsche da Lionspeed GP, Pure Rxcing e Tsunami RT, bem como o Mercedes-AMG GetSpeed n.º 12. O Aston Martin da Blackthorn recebeu ainda uma penalização de 150 segundos stop-and-hold por troca de motor após a qualificação. O Audi n.º 66 da Tresor Attempto Racing perdeu a pole da Silver Cup por incumprimento das medições do Balance of Performance, enquanto o McLaren n.º 111 da CSA Racing e o Porsche n.º 89 da Lionspeed também partem do fim da grelha por irregularidades técnicas detetadas em controlo.
A FIA reviu ainda a categorização do piloto Mex Jansen, da Ziggo Sport Tempesta Racing, de Ouro para Prata, apenas para esta prova, permitindo maior equilíbrio nas formações da Bronze Cup. Para 2026, a SRO anunciou que os vencedores da GT Academy terão entrada garantida em Spa num Mercedes-AMG GT3 Evo, uma iniciativa inédita para jovens pilotos sub-30 dos principais campeonatos GT.
A próxima ronda do GT World Challenge Europe realiza-se em Nürburgring, mas todas as atenções estão agora centradas em Spa. Com a grelha baralhada por penalizações e as temperaturas extremas a ditarem estratégias inéditas, a luta pela vitória promete ser imprevisível, com a Ferrari da AF Corse a partir na frente, mas com muitos adversários prontos a surpreender ao longo das 24 horas.
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