O Grande Prémio do Canadá de 2026 trouxe à tona uma série de revelações surpreendentes, que expuseram as fragilidades e forças ocultas das equipas de Fórmula 1 nesta temporada. Entre contrastes dramáticos na performance dos pilotos da Ferrari, batalhas internas acesas na Mercedes e o peso das decisões estratégicas, o circuito de Montreal foi palco de um fim de semana rico em emoções e lições cruciais para a luta pelo título.
A Ferrari viveu dois mundos num só fim de semana. Charles Leclerc descreveu a sua experiência como “o pior fim de semana de sempre em F1”, desde a falta de feeling com o carro até à constante luta contra a instabilidade dos travões e pneus. O piloto monegasco confessou que o quarto lugar final foi “mais sorte do que fruto do meu trabalho”, atribuindo as dificuldades à incompatibilidade do seu estilo com o ritmo das curvas de Montreal. Em nítido contraste, Lewis Hamilton viveu um renascimento com a Ferrari, adotando uma abordagem inédita ao escolher uma configuração do carro que nunca tinha sido testada antes. O sete vezes campeão deliciou-se a perseguir Max Verstappen, descrevendo uma sensação “absolutamente incrível” que não sentia desde o início da temporada. Hamilton revelou ainda que, apesar do valor do simulador para dados e análise, prefere voltar a uma preparação mais tradicional e “old-school” para a sua condução pessoal.
Na Mercedes, o clima é de alerta máximo. A equipa está determinada a evitar que a rivalidade entre George Russell e Kimi Antonelli se transforme numa guerra interna destrutiva, à semelhança do que aconteceu entre Hamilton e Nico Rosberg. A mensagem foi clara: “se não conseguirem manter as coisas limpas, vamos impedir que corram um contra o outro”, afirmou a equipa. Toto Wolff, apesar de minimizar a tensão nas entrevistas, confirmou que “ficaram perto de situações que podiam ter tirado ambos os carros da corrida” e que haverá uma linha a não ultrapassar nas próximas batalhas internas. Com Russell fora da corrida após um abandono, Antonelli aproveitou para ampliar a liderança no campeonato para 43 pontos, dando-lhe alguma margem para respirar.
Red Bull mostrou sinais de recuperação, mas a sua vitória moral foi algo enganadora. Max Verstappen celebrou o primeiro pódio da temporada, embora reconhecesse que o rendimento do carro em Montreal foi inferior ao esperado e que algumas decisões estratégicas da equipa foram questionáveis. O jovem Isack Hadjar teve um desempenho promissor no sábado, mas no domingo perdeu ritmo inexplicavelmente e ainda foi penalizado por uma manobra perigosa sobre Leclerc. Laurent Mekies, diretor da equipa, admitiu que apesar de terem “resolvido problemas fundamentais” desde o início da temporada, ainda há muito caminho para melhorar.
O futuro de Verstappen na Fórmula 1 está em suspenso. Fontes próximas do piloto garantem que ele está “muito sério” quando afirma que poderá abandonar a modalidade se as regras sobre a gestão de energia não forem revistas para 2027. O atual equilíbrio 50/50 entre motor de combustão e bateria é um tormento mental para o holandês, que prefere “divertir-se noutros lugares” a continuar a suportar o que classifica de “tortura”. A FIA e a F1 enfrentam assim uma pressão enorme para negociar alterações que possam aproximar o equilíbrio para 60/40, o que conta com o apoio de alguns fabricantes, nomeadamente Audi, Honda, Mercedes e Red Bull.
Alex Albon continua a viver um calvário na temporada. O acidente inusitado logo na primeira sessão de treinos, após embater num groundhog, obrigou-o a falhar a qualificação sprint. No Grande Prémio, foi vítima de um toque de Oscar Piastri que o afastou precocemente da corrida. Albon afirmou que precisa de mais tempo de pista para se adaptar ao difícil carro da equipa, revelando que aos 12 voltas ainda estava a aprender a gerir o sistema de energia, precisamente quando sofreu a colisão. A sua luta contrasta com a consistência do companheiro Carlos Sainz, que já somou três vezes pontos.
A guerra das atualizações técnicas continua sem um vencedor claro. A Mercedes trouxe um pacote de melhorias no assoalho, asa dianteira e suspensão que prometia ganhos, mas Toto Wolff admite que os resultados ainda não são totalmente convincentes. McLaren também atualizou o seu carro com novas asas e componentes aerodinâmicos, mas retirou a asa dianteira após os treinos livres para mais testes. Ambas as equipas procuram extrair mais performance num cenário onde cada décimo conta.
Cadillac continua a surpreender, mas não da melhor forma. O carro tem evoluído rapidamente, mas a equipa sofre com falhas operacionais que têm custado pontos importantes. Sergio Pérez destacou que “estamos a falhar tremendamente nas operações” e que “não estamos a maximizar os resultados”, sublinhando a impaciência face aos erros estratégicos e mecânicos que comprometem o potencial do monolugar.
Na Alpine, a dinâmica entre Pierre Gasly e Franco Colapinto inverteu-se. Colapinto, que vinha em dificuldades, mostrou-se forte em Montreal com um nono lugar e um lugar no Q3, enquanto Gasly enfrenta problemas técnicos e continua a lutar com o carro aprimorado. Gasly admitiu estar “completamente perdido” desde as últimas melhorias, enquanto a equipa tenta gerir a pressão das vozes críticas que antes estavam contra Colapinto.
McLaren voltou a errar na estratégia ao optar por pneus intermédios numa pista que secou rapidamente, confirmando uma fraqueza que já se arrasta desde 2023. Apesar da justificação da equipa quanto às condições imprevisíveis e ao atraso na partida, rivais não pouparam críticas, considerando a decisão um erro grave que prejudicou a corrida de Norris e Piastri.
A Aston Martin enfrentou um problema inédito de fiabilidade: a posição do assento dos pilotos. Fernando Alonso teve de abandonar a corrida devido a um incómodo crescente provocado pelo assento, que foi rotacionado para trás para otimizar a performance do carro, mas acabou por criar um ponto de pressão desconfortável. A equipa já trabalha numa solução para o próximo Grande Prémio em Mónaco.
No pelotão intermédio, a sorte ditou grande parte dos resultados. Audi cometeu erros estratégicos e de pilotagem, incluindo penalizações e falhas nas largadas, desaproveitando um fim de semana de alta atrição. Equipa Racing Bulls sofreu uma perda no arranque, enquanto Liam Lawson terminou em sétimo mas sem ritmo para lutar mais à frente. Haas, por sua vez, viu as atualizações trazerem novos problemas, deixando a equipa a tentar recuperar o controlo do carro.
O Grande Prémio do Canadá serviu como um espelho que reflete as fragilidades, as oportunidades e as batalhas internas que moldam a Fórmula 1 em 2026. Com o campeonato a desenrolar-se entre avanços técnicos, rivalidades acesas e a urgência de decisões




