O deslumbramento da Ferrari em Barcelona rapidamente deu lugar à preocupação após um início atribulado no Grande Prémio da Áustria. Depois de terem surpreendido a Mercedes há duas semanas, ao quebrar a invencibilidade das Flechas de Prata em 2026, os italianos enfrentaram grandes dificuldades nas sessões de treinos livres em Spielberg, ficando claramente aquém do desempenho demonstrado em solo espanhol. O calor intenso no Red Bull Ring, com temperaturas a ultrapassar os 33ºC e o asfalto acima dos 50ºC, só veio agravar os problemas da Scuderia, que se viu a lutar por aderência e ritmo desde a primeira volta.
No final da segunda sessão de treinos livres (FP2), Lewis Hamilton (Mercedes) e Charles Leclerc (Ferrari) terminaram em quinto e oitavo lugares, respectivamente. Hamilton ficou a 0,678 segundos do mais rápido, Kimi Antonelli (Mercedes), evidenciando desde logo a vantagem da equipa alemã. Leclerc, que só entrou em pista na FP2 depois de ceder o seu monolugar ao rookie Dino Beganovic na FP1, nunca conseguiu encontrar o equilíbrio ideal, enquanto Beganovic assinou um promissor nono tempo na sua estreia. Os dados iniciais apontam para que a Ferrari esteja não só atrás da Mercedes, mas também da McLaren, tanto em ritmo de qualificação como em andamento de corrida, o que levanta dúvidas sobre a capacidade de replicar o sucesso obtido em Barcelona.
A expectativa em torno do novo motor V6, resultado do primeiro pacote de evoluções ADUO, acabou por ser moderada. Embora a unidade propulsora tenha trazido um ligeiro acréscimo de potência, tal como antecipado por Maranello, a Ferrari mostrou-se incapaz de extrair todo o potencial do SF-24 nas condições extremas do Red Bull Ring. Numa fase em que a luta pelo campeonato está ao rubro, com a Mercedes a tentar consolidar a sua vantagem e a Ferrari a procurar recuperar terreno, o desempenho de sexta-feira deixou a Scuderia em alerta.
Após a sessão, Charles Leclerc mostrou-se pragmático, mas sem grande otimismo: “Não estou assim tão confiante, mas nunca se sabe. É verdade que na sexta-feira em Barcelona havia alguns elementos que nos faziam pensar que havia bastante performance no carro. Agora tem sido uma luta, o FP1 que não fiz e também o FP2 dentro do carro. Foi uma sexta-feira difícil para a equipa.” Questionado sobre as principais dificuldades, Leclerc foi claro: “Falta aderência global, temos estado a deslizar com os quatro pneus desde a primeira volta. Tem sido muito, muito complicado. Em Barcelona também foi difícil com os pneus, aqui há limitações diferentes, mas a gestão dos pneus vai ser igualmente crucial. Em termos de degradação não estamos mal, mas o maior problema é o ritmo, que não está lá. Talvez depois de 20 voltas sejamos rápidos, mas 20 voltas não são suficientes. Temos de trabalhar no carro.”
Do lado da equipa, o director Fred Vasseur optou por alguma ironia ao comparar a sexta-feira austríaca à de Barcelona, salientando no entanto as dificuldades acrescidas pelas condições atmosféricas: “Hoje tivemos dificuldades com as condições, tal como em Barcelona. A altitude, a temperatura, tanto da pista como do ar, afectaram-nos bastante. Isso acontece a todos, mas a verdade é que tivemos muitos problemas. Temos de trabalhar no set-up, no carro, na condução, em tudo, para fazermos um melhor trabalho amanhã.” Vasseur destacou ainda a diferença em relação à prova espanhola, sublinhando que a degradação dos pneus em Spielberg não será tão determinante: “A degradação em Barcelona era muito maior e era o principal factor de performance, pelo menos na corrida. Mas também fomos capazes de lutar pela pole position na qualificação. Agora, estamos longe disso, pelo menos por enquanto. Em Barcelona também não brilhámos na sexta-feira, por isso há potencial para desbloquear esta noite, veremos amanhã.”
Sobre o novo motor V6, Vasseur frisou que o ganho era previsível e limitado: “O tempo de desenvolvimento no motor é enorme. Em alguns componentes há meses de atraso. Foi muito arriscado lançar a especificação dois do motor tão cedo por motivos de teto orçamental. Não esperávamos um grande salto neste fim-de-semana.”
Com a qualificação a aproximar-se e a Mercedes claramente à frente, a Ferrari enfrenta uma noite crucial de análise de dados e afinação do SF-24. O desempenho discreto coloca pressão adicional sobre Leclerc e Carlos Sainz, que precisam de um sábado perfeito para evitar perder contacto com os rivais diretos no campeonato. Para além da Mercedes, a McLaren também se revela uma ameaça concreta, tornando cada ponto ainda mais valioso na luta pelo segundo lugar do Mundial de Construtores. A próxima sessão de qualificação será o verdadeiro teste à capacidade de recuperação da Ferrari, que terá de mostrar argumentos sólidos para contrariar o favoritismo dos alemães e britânicos em Spielberg.
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