O Grande Prémio de Mónaco de Fórmula 1 trouxe surpresas inesperadas para um paddock que chegou à Riviera francesa à espera de uma luta renhida entre Kimi Antonelli, Max Verstappen e a Ferrari. No entanto, a narrativa que emergiu da prova foi bem diferente, com Antonelli a conquistar a sua quinta vitória consecutiva num domínio impressionante, e a imprensa internacional a interpretar o desfecho de formas distintas.
Em Itália, o espetáculo foi todo para Antonelli. O jornal Gazzetta dello Sport não teve dúvidas em coroar o piloto da Mercedes como “o novo rei de Monte Carlo“, considerando a vitória como o início oficial de uma nova lenda desportiva italiana. O diário destacou a maturidade do jovem piloto, que controlou a corrida desde a pole position com uma serenidade invulgar: “Quando o capacete desceu, o jovem italiano entrou num mundo que lhe pertence inteiramente.” Para além disso, o jornal recordou a simplicidade do plano de Antonelli, que afirmou antes da prova que não precisava de fazer nada mágico, apenas arrancar limpo. À medida que Verstappen, Lando Norris, Charles Leclerc, Valtteri Bottas e Oliver Bearman foram desaparecendo da luta, Gazzetta viu apenas uma história: “Numa corrida cheia de surpresas, só havia uma certeza na frente: a coroação do novo rei de Mónaco.” Mesmo o segundo lugar de Lewis Hamilton pela Ferrari foi ofuscado pela supremacia do piloto italiano.
Já em França, o foco foi outro. Os jornais L’Equipe e Le Monde destacaram o pódio alcançado por Isack Hadjar, o primeiro da sua carreira pela Red Bull, como o grande feito da prova. L’Equipe captou a emoção do piloto francês com as suas palavras após a corrida: “Meu Deus, por que é que tem sempre de ser tão complicado?” Para a imprensa francesa, Mónaco foi uma verdadeira prova de sobrevivência, marcada por penalizações, investigações e problemas de fiabilidade. Hadjar emergiu como um dos grandes beneficiados do caos, enquanto Le Monde descreveu a sua corrida como uma montanha-russa emocional, salientando as preocupações com o motor que o piloto teve de gerir. Um dado relevante para França foi que, pela primeira vez desde Spa 2018, três pilotos franceses pontuaram na mesma corrida – Hadjar, Pierre Gasly e Esteban Ocon –, oferecendo à imprensa local uma história de sucesso nacional em meio à confusão.
Na Alemanha, a atenção recaiu sobre os contrastes evidentes da prova. A revista Auto Bild definiu Antonelli como “imparável,” sublinhando o impacto de se tornar no mais jovem vencedor de Mónaco na história da Fórmula 1. O abandono precoce de Verstappen, um dos poucos capazes de rivalizar com Mercedes, foi igualmente realçado. A emissora pública Sportschau centrou-se nos momentos caóticos da corrida, desde a interrupção causada pelo desgaste do asfalto, até à polémica penalização de George Russell e a confusão nas decisões dos comissários. Um dado simbólico destacado foi que Antonelli fez uma volta mais rápida que o seu próprio colega de equipa Russell, reforçando a sua superioridade. Por outro lado, o início difícil da Audi em Fórmula 1 continuou a ser um tema central, com Nico Hülkenberg a ficar fora dos pontos mais uma vez, deixando a marca alemã ainda à procura do seu primeiro resultado pontuável.
Em Espanha, o diário Marca foi dos mais elogiosos, afirmando que Antonelli não ganhou apenas o Grande Prémio de Mónaco, mas entrou no panteão dos maiores do Principado. “O italiano deixou de ser apenas um prodígio ao volante do carro mais rápido da grelha. Está a tornar-se algo muito maior.” O jornal sublinhou que a vitória teve um significado para além da velocidade pura: “O piloto da Mercedes não só venceu a corrida; desferiu outro golpe psicológico a todos os seus rivais.” Com Verstappen fora, Russell em dificuldades, Norris a abandonar e Leclerc a sair de pista, a condução limpa e sem erros de Antonelli reforçou esta ideia. Marca dedicou também atenção ao contingente espanhol, elogiando o fim de semana de Fernando Alonso apesar do resultado desapontante, e referiu que Carlos Sainz mostrou potencial para pontuar antes de a corrida lhe fugir das mãos.
O britânico The Guardian considerou a vitória em Mónaco como talvez a mais impressionante de Antonelli até ao momento. Não pela velocidade, já reconhecida, mas pela forma como o piloto geriu a pressão numa corrida cada vez mais imprevisível. O jornal descreveu a vitória como “uma execução perfeita”, realçando especialmente a relargada em pé após a bandeira vermelha, num momento em que a pista estava a degradar-se perigosamente na última curva. “Antonelli teve de suportar os momentos tensos da relargada sob safety car e, depois, a enorme pressão de uma relargada completa depois do incidente que abalou o asfalto.” Mesmo quando Hamilton parecia poder atacar na curva 1, Antonelli manteve a linha, o sangue frio e a liderança até à bandeirada. O Guardian qualificou a prestação como digna de campeão e sugeriu que poderá ser a primeira de muitas vitórias no Principado.
No Brasil, a atenção centrou-se naturalmente em Gabriel Bortoleto, piloto da Audi que teve um início complicado, obrigado a sair da box devido a problemas técnicos antes da corrida. Apesar de os pontos parecerem impossíveis inicialmente, o jovem piloto subiu até ao 11.º lugar graças a estratégia, abandonos e penalizações pós-corrida. Ainda assim, o foco voltou a Antonelli, que foi descrito pela Globo Esporte como um “veterano de 19 anos” pela calma demonstrada perante safety cars, relargadas e a pressão constante de Hamilton.
Por fim, a perspetiva japonesa da Auto Sport Web destacou a supremacia de Antonelli, afastando-se da narrativa do caos e das penalizações que dominaram a Europa. Para a publicação, o italiano nunca esteve realmente ameaçado, mesmo quando teve de ultrapassar tráfego. O piloto da Mercedes foi elogiado por construir distâncias confortáveis, colocar quase toda a concorrência a uma volta de atraso e manter-se mais rápido mesmo com pneus muito gastos. Um momento simbólico foi quando a equipa lhe disse para não procurar a volta rápida, mas Antonelli continuou a rodar mais depressa que os adversários. Para os japoneses, Mónaco foi, acima de tudo, a demonstração de um piloto a operar num nível completamente diferente.
O Grande Prémio de Mónaco revelou-se, assim, um momento decisivo para Antonelli e para a Fórmula 1, mostrando diferentes narrativas conforme o prisma mediático, mas unanimemente reconhecendo o talento e a maturidade de um dos maiores talentos da nova geração.
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