O regresso do Campeonato do Mundo de Fórmula E a Sanya, na ilha chinesa de Hainan, ficou imediatamente marcado por um enredo disciplinar que promete agitar a grelha de partida. Quatro pilotos entram na 11.ª ronda da época com penalizações na bagagem, herdadas dos incidentes polémicos do Grande Prémio do Mónaco, e pelo menos dois destes deverão ainda cumprir penalizações suplementares durante a corrida, alterando o equilíbrio de forças num dos circuitos mais desafiantes do calendário elétrico.
No centro das atenções está Lucas di Grassi, piloto da ABT Cupra, que enfrenta uma penalização inédita de 40 lugares na grelha, imposta depois de a sua unidade de controlo (MCU) e caixa de velocidades terem sido ambas substituídas após o início da qualificação no Mónaco. Dado ser impossível descer 40 lugares numa grelha com apenas 22 carros, di Grassi não só partirá da última posição, como terá obrigatoriamente de cumprir uma penalização de passagem pelas boxes (drive-through) logo nas primeiras voltas em Sanya. Esta decisão dos comissários deixa o experiente brasileiro praticamente afastado de qualquer aspiração pontuável, numa época já de si complicada para a ABT Cupra.
Taylor Barnard, jovem talento da DS Penske, também não escapou à mão pesada da Direcção de Prova. O britânico carrega uma penalização de 10 lugares na grelha, resultado de dois incidentes distintos no Mónaco: um toque com Norman Nato e outro com Jean-Éric Vergne, ambos considerados evitáveis. Caso Barnard não consiga qualificar-se dentro do top 10 em Sanya, terá igualmente de cumprir um drive-through, cenário que compromete desde logo as ambições da DS Penske nesta ronda asiática. Maximilian Günther, colega de equipa de Barnard, recebeu uma penalização de três lugares na grelha por excesso de velocidade sob regime de full course yellow, também no Mónaco, agravando as dificuldades da estrutura francesa para manter a luta pelos lugares cimeiros no campeonato.
A fechar o quarteto penalizado surge Pepe Martí, da Cupra Kiro, forçado a perder cinco lugares na grelha devido a um incidente com Nick Cassidy na última corrida. Apesar de menos severa, esta penalização pode ser decisiva num circuito onde ultrapassar se revela particularmente desafiante e onde cada posição conquistada ou perdida na partida pode ditar o desfecho final da prova.
As consequências destas sanções são profundas no contexto do campeonato. Com apenas cinco provas por disputar, cada ponto é vital na corrida ao título de pilotos e construtores. Lucas di Grassi, afastado das contas do título, vê-se agora relegado para papel secundário, enquanto a DS Penske, que ainda alimentava esperanças de aproximação ao top 3 do campeonato de equipas, sofre um duplo revés com as penalizações de Barnard e Günther. O impacto é igualmente sentido por Pepe Martí, cuja penalização complica o seu objectivo de pontuar regularmente na sua época de estreia.
No rescaldo das decisões dos comissários, os protagonistas não esconderam a frustração. Lucas di Grassi, abordado após o anúncio da penalização, foi peremptório: “Acho que a penalização é pesada, mas compreendo a necessidade de cumprir o regulamento. Vamos tentar minimizar os danos e dar o nosso melhor na corrida.” Taylor Barnard, visivelmente desapontado na antevisão da prova, afirmou: “Foram incidentes infelizes no Mónaco, mas aceito a decisão dos comissários. Resta-me focar na qualificação e tentar uma recuperação sólida.” Já Maximilian Günther, após a sessão de treinos livres em Sanya, destacou: “Foi um erro sob full course yellow, assumi a responsabilidade. A equipa e eu vamos trabalhar para ultrapassar este contratempo.” Por fim, Pepe Martí mostrou-se pragmático: “Sabia que ia ser penalizado, agora é concentrar-me em ganhar lugares durante a corrida.”
Com Sanya a acolher apenas pela segunda vez uma ronda da Fórmula E, a incerteza é total quanto ao desfecho, especialmente com uma grelha baralhada pelas penalizações e com os candidatos ao título atentos a todas as oportunidades. A próxima ronda, marcada para Tóquio, será decisiva para clarificar as contas do campeonato, mas para já todas as atenções estão voltadas para a luta em Hainan. Pilotos e equipas penalizados terão de apostar numa estratégia agressiva e em ritmo de ataque desde o apagar das luzes, conscientes de que cada ultrapassagem será crucial para recuperar terreno perdido e manter vivas as aspirações no campeonato. O público português, sempre atento ao universo da Fórmula E, pode esperar uma prova repleta de dramatismo, onde a gestão das adversidades e a mestria ao volante serão postas à prova como nunca.
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