O caos nas regulamentações dos motores para 2026 voltou a dominar as discussões no paddock da Fórmula 1, provocando críticas ferozes de diversos intervenientes e até propostas radicais para acabar com o que alguns já denominam de “nonsense” regulamentar. A polémica subiu de tom após o Grande Prémio do Mónaco, quando foi anunciada uma nova reviravolta: a FIA, a F1, as equipas e os fabricantes de unidades motrizes chegaram a acordo para voltar a alterar as regras dos motores já a partir de 2027, afastando-se do equilíbrio 50/50 entre combustão e energia eléctrica que tinha sido definido para 2026.
Neste momento, menos de meio campeonato de 2026 está concluído, mas já se prepara mais uma revisão profunda: o objectivo passa por atingir uma divisão de potência de 60/40 (combustão/eléctrico) até 2028, contrariando o que estava inicialmente prometido aos novos construtores, como a Audi, cuja entrada na modalidade foi motivada precisamente pelo conceito híbrido equiparado. Esta mudança súbita deixou várias marcas em dúvida quanto ao seu compromisso futuro com a disciplina. O ambiente é de incerteza e até de desconfiança, com os fornecedores de unidades motrizes a tentarem provar que têm o motor “menos competitivo” para poderem beneficiar de ajudas adicionais da FIA, num autêntico braço-de-ferro técnico e regulamentar.
No centro da polémica, Peter Windsor, antigo gestor de equipas e reputado analista do desporto, não poupou nas palavras durante uma transmissão em directo antes do Grande Prémio de Barcelona. “A Audi neste momento não quer afastar-se do 50/50. A maioria das equipas quer pelo menos o 60/40 já no próximo ano, o que, na minha opinião, ainda não chega, mas mesmo assim será difícil se ouvirem equipas como a Audi”, afirmou Windsor, salientando ainda a posição da Ferrari: “A Ferrari também está a ir por esse caminho, embora não perceba muito bem porquê; talvez porque estão a conseguir bons resultados com as duas últimas evoluções. Está tudo uma confusão.”
Windsor apontou ainda a introdução do tecto orçamental como raiz do problema: “Porquê este caos? Porque temos o limite orçamental. Sempre disse que isso é um disparate completo e que a Fórmula 1 seria muito melhor sem restrições. Se a Mercedes, Ferrari, Audi ou Honda quiserem investir mais para desenvolver os seus motores, que o façam. Tudo assenta sempre em oferta e procura, e é por estas limitações absurdas que se gera tanto drama. As quantias de dinheiro envolvidas são tão grandes que a ideia de poupança é ridícula.”
O britânico foi mais longe, sugerindo uma solução pouco ortodoxa mas, no seu entender, eficaz: “Seria muito melhor, embora poucos gostem disto, se dissessem: ‘Têm dois motores à escolha, Ferrari ou Mercedes, e acabou. Essa é a nova Fórmula 1’. A Ferrari tem de estar sempre, porque faz questão de construir o seu próprio motor, como sempre fez. Mas, se fosse assim, não haveria discussões. Era como nos velhos tempos: Cosworth contra Ferrari. É isso que devíamos ter agora.”
No desfecho do seu discurso, Windsor apelou à estandardização e ao fim dos ‘meios-termos’: “Estandardizem tudo. Parem de brincar com recomendações ridículas. Toda a gente a tentar agradar a todos, sobretudo à Audi, mas ao mesmo tempo queremos uma competição a sério. E olhem ao que chegámos: está tudo uma confusão total.”
À medida que a Fórmula 1 ruma para o Grande Prémio da Áustria, as equipas preparam-se para mais uma ronda num campeonato marcado por uma incerteza regulamentar inédita. O debate sobre o futuro dos motores está longe de terminado e poderá influenciar tanto a entrada de novos construtores como a competitividade das equipas existentes. Com as posições do campeonato ainda muito equilibradas após Barcelona, e as actualizações técnicas a fazerem toda a diferença, resta saber quem conseguirá adaptar-se melhor ao novo cenário. Para já, o foco volta-se para Spielberg, onde se espera que estas questões voltem a ser tema de conversa – e, quem sabe, de novas decisões que mexam ainda mais com a hierarquia da modalidade.
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