Takamoto Katsuta parecia ter finalmente quebrado o enguiço, ao conquistar duas vitórias consecutivas no Campeonato do Mundo de Ralis da FIA — primeiro no exigente Safari Rally Quénia, depois numa edição dramática do Rali da Croácia. No entanto, longe de abrir caminho para um ciclo de sucesso, esses triunfos podem ter trazido consequências inesperadas ao piloto japonês, que desde então não voltou a subir ao pódio e foi consistentemente superado pelos colegas de equipa da Toyota Gazoo Racing.
No Safari Rally Quénia, Katsuta celebrou o seu tão esperado primeiro triunfo ao volante do Toyota GR Yaris Rally1, impondo-se perante adversidades extremas e demonstrando uma maturidade de pilotagem assinalável. O momentum parecia estar do seu lado: na ronda seguinte, na Croácia, beneficiou do infortúnio de Thierry Neuville, que liderava destacado até um acidente na última especial, e conquistou nova vitória. “Senti-me mais leve antes da Croácia, depois de finalmente provar a mim mesmo que podia vencer ao mais alto nível do WRC”, confessou Katsuta após a prova, sublinhando o impacto psicológico positivo do sucesso. Contudo, desde então, o piloto nipónico não conseguiu melhor do que um quarto lugar e ficou atrás de todos os seus quatro colegas da Toyota — Kalle Rovanperä, Sébastien Ogier, Elfyn Evans e até do jovem Takamoto Suninen.
O recente Rally Japão, palco natal de Katsuta, acabou por ser um duro golpe. Logo na primeira especial, o japonês saiu largo e atirou uma roda para um valado de drenagem, provocando um furo que comprometeu a estratégia de pneus para a etapa seguinte, essencialmente húmida, onde ficou sem o composto macio de que mais precisava. Apesar de ter recuperado posições nos dois últimos dias e terminado em quarto, o desânimo do piloto era visível na sexta-feira. O desejo intenso de vencer em casa, aliado à pressão acrescida de corresponder às expectativas, revelou-se um fardo difícil de suportar.
Tom Fowler, director técnico da Toyota Gazoo Racing, abordou publicamente este fenómeno, sugerindo que alcançar a vitória pode, paradoxalmente, tornar mais difícil aceitar resultados menos positivos. “O que notei ao longo dos anos é que ganhar… talvez não seja assim tão bom”, escreveu Fowler numa coluna exclusiva. “Pensamos que, depois de vencer, tudo vai começar a ser fácil, mas na verdade só fica mais difícil. Quando ganhas, ficas feliz durante uns 10 minutos ou um dia. Mas quando perdes, ficas irritado durante duas semanas — um dos grandes motivos para vencer é não passar duas semanas irritado! Depois, tens de voltar a fazê-lo, e o trabalho recomeça do zero. Com o aumento das expectativas, acreditamos que tudo se vai tornar mais simples, mas não é o caso. Acho que é aí que o Taka tem estado nas últimas semanas. Mas não vejo nisso um problema — é algo normal nesta fase da carreira”, concluiu Fowler.
Estas declarações reflectem bem a pressão psicológica que pode acompanhar o êxito repentino, sobretudo num campeonato tão combativo e implacável como o WRC. Para Katsuta, a fasquia interna subiu drasticamente após as vitórias, tornando qualquer resultado aquém do primeiro lugar numa potencial fonte de frustração. O impacto no seio da Toyota é notório: apesar do excelente início de época, a falta de consistência recente deixou-o afastado da luta pelo título e obrigou a equipa a repensar estratégias para os ralis finais da temporada.
O próximo desafio será o Rali do Chile, onde Katsuta tentará inverter a tendência e regressar aos lugares do pódio. Com Kalle Rovanperä confortável na liderança do campeonato e a Toyota a lutar pelo título de construtores, a pressão para que todos os pilotos pontuem é máxima. Katsuta terá de gerir não apenas as exigências técnicas do rali, mas também as expectativas pessoais e colectivas, num momento decisivo para o desfecho da temporada. Resta saber se o japonês conseguirá transformar o peso das vitórias recentes numa motivação renovada, ou se o espectro do sucesso continuará a ser um obstáculo psicológico inesperado na sua evolução como piloto de topo no Mundial de Ralis.
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