Mitch Evans esteve perto de ver o seu domínio no Campeonato do Mundo de Fórmula E ser abalado de forma dramática no Grande Prémio de Sanya, após um incidente insólito provocado por Dan Ticktum. O piloto da Jaguar, que partiu da terceira posição, foi atingido violentamente por trás, perdeu o controlo da prova e ficou a um passo de comprometer a liderança do campeonato – mas um conjunto improvável de circunstâncias acabou por salvar a sua vantagem pontual.
Na qualificação, Evans surpreendera ao encontrar ritmo suficiente para garantir o terceiro posto da grelha, apesar de dificuldades sentidas durante os treinos livres no circuito de Hainan, na China. Durante grande parte da corrida, manteve-se entre o grupo da frente, com seis minutos de Attack Mode ainda disponíveis e uma gestão de energia exemplar – tudo apontava para um resultado seguro dentro do top-5 e, quiçá, um regresso ao pódio. Contudo, na 18.ª volta, tudo mudou: Dan Ticktum, apanhado de surpresa pela desaceleração dos carros à sua frente na curva 6, embateu com força no Jaguar de Evans, literalmente a “atirá-lo” para fora da luta pelo triunfo. O impacto arrancou-lhe a asa traseira e entortou a suspensão direita traseira, obrigando a equipa a um trabalho de reparação de emergência durante uma paragem forçada, após um red flag inusitado.
No reinício, e apesar do esforço dos mecânicos, Evans viu-se impedido pela FIA de regressar à pista sem a nova asa traseira montada – uma decisão que o relegou para uma volta de atraso e, inevitavelmente, para o fundo da tabela classificativa. “Sim, porque a minha suspensão traseira direita ficou completamente torta e, obviamente, a asa traseira saiu disparada”, relatou Evans no final da corrida, já depois de ter travado uma acesa troca de argumentos com a direcção de prova. “Inicialmente achei que estava bem, sem furos ou danos graves, mas quando cheguei à curva em gancho percebi que algo não estava certo. Parecia um furo, mas era a suspensão a ceder. Mesmo sem bandeira vermelha, teria de parar para reparar. Por isso, de certa forma, a paragem até nos deu hipótese de tentar voltar. A equipa fez um trabalho incrível a trocar tudo, mas fomos impedidos de sair sem a asa traseira. Esse processo não é muito demorado, mas foi o suficiente para perdermos uma volta. Estranhamente, há carros que saem das boxes sem asas noutras situações, mas neste caso não nos deixaram, e isso impediu-nos de recuperar.”
O que parecia o início de uma hecatombe na classificação acabou, no entanto, por se transformar num exercício de sobrevivência providencial para Evans, graças a uma conjugação de azares entre os principais rivais. Edoardo Mortara abandonou após o seu Mahindra apagar-se devido a detritos, Oliver Rowland sofreu um acidente e Pascal Wehrlein terminou apenas em 14.º, penalizado. Nenhum dos três somou pontos, permitindo ao neozelandês manter intacta a liderança do campeonato, com os mesmos 19 pontos de vantagem antes de chegar ao duplo confronto de Xangai, daqui a duas semanas.
Confrontado sobre se se sentia sortudo ou azarado com o desenrolar da prova, Evans foi peremptório: “Sim e não. Tive sorte nesse aspecto, mas claro que foi muito azar ser abalroado pelo Ticktum. Podia ter sido bem pior, podia ter perdido toda a vantagem no campeonato. Portanto, depende de como se olha para a situação: azarado, mas também sortudo, de certa forma. Pessoalmente, encaro isto como uma oportunidade desperdiçada. Estávamos numa posição excelente para lutar pela vitória. Tinha energia, tinha o Attack Mode, tudo estava a correr bem. Mas, por outro lado, saí ileso na classificação. Podia ter sido pior, podia ter sido melhor.”
Com a próxima ronda marcada para Xangai, o Campeonato do Mundo de Fórmula E mantém-se em aberto, com Evans a segurar a liderança mas sem margem para relaxar. O neozelandês sabe que a pressão dos adversários irá aumentar e que cada ponto poderá ser decisivo na recta final da temporada. A Jaguar precisará de afinar a fiabilidade e a estratégia para evitar surpresas, enquanto Mortara, Rowland e Wehrlein terão de arriscar tudo para recuperar terreno. O desfecho do campeonato promete emoção até ao último metro, com a luta pelo título mais acesa do que nunca.
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