Um incidente insólito no Grande Prémio de Barcelona, que levou à desistência de Nico Hülkenberg devido a uma pedra que acionou inadvertidamente o interruptor de corte do motor do seu Audi, ilustra bem a maré de azar que tem assolado a marca alemã nesta temporada de estreia. Apesar de exibições de ritmo competitivo face aos rivais directos, como Alpine e Racing Bulls, a Audi soma apenas dois pontos após cinco provas do Campeonato do Mundo de Fórmula 1, ocupando a nona posição no Mundial de Construtores, um registo que não espelha a real competitividade do novo R26.
A performance em qualificação tem colocado regularmente os Audi entre o meio do pelotão, mas a dificuldade em arrancar de forma consistente e os azares em corrida têm penalizado fortemente a equipa. Em Melbourne, Nico Hülkenberg e o seu colega de equipa deram à Audi os primeiros pontos, mas desde então, a equipa de Ingolstadt tem visto os resultados escaparem-lhe por entre os dedos, muitas vezes por detalhes ou incidentes fora do seu controlo. O melhor exemplo foi mesmo em Barcelona, quando Hülkenberg travava uma luta intensa com Liam Lawson, apenas para ver a sua corrida terminar abruptamente devido a um infortúnio praticamente inédito.
Apesar deste arranque irregular, Gernot Döllner, CEO da Audi, mantém-se confiante no projecto a longo prazo. Durante o fim de semana do Grande Prémio do Mónaco, Döllner reiterou o compromisso da Audi em tornar-se candidata ao título até 2030: “Estamos absolutamente nesse caminho; durante dois anos seremos desafiantes, depois competidores e, finalmente, lutaremos para conquistar o campeonato no ano alvo de 2030; o plano mantém-se e estamos a segui-lo,” afirmou, sublinhando que o desempenho global da equipa está dentro das expectativas traçadas na estratégia inicial. “Esta temporada está onde queríamos estar, por volta do lugar que ocupamos atualmente. Claro que gostaríamos de ter somado mais pontos, mas o desempenho do carro e da equipa está conforme o previsto.”
Questionado sobre o balanço do primeiro quarto da temporada, Döllner destacou o muito que há a aprender, mas mostrou-se satisfeito: “Estamos muito contentes com a posição em que nos encontramos agora. Após cinco corridas, o rendimento do carro situa-se no meio do pelotão em termos de velocidade. Tivemos um excelente começo pelos dois pontos de Melbourne, depois houve muito a aprender, sobretudo ao nível do grupo motopropulsor e das operações. É a primeira vez que a Audi desenvolve unidades motrizes próprias e opera em simultâneo nos departamentos de chassis e motor, exigindo uma integração inédita. A equipa tem feito um trabalho notável a optimizar processos e estamos a aprender passo a passo, o que nos deixa satisfeitos.”
Mattia Binotto, responsável da Audi para a Fórmula 1, reconheceu recentemente que o principal calcanhar de Aquiles da equipa reside na unidade motriz, especialmente devido ao turbo de maiores dimensões, que dificulta as partidas e apresenta défice de potência face aos rivais, nomeadamente à Red Bull. A FIA ainda não divulgou formalmente os resultados das inspecções técnicas, mas é expectável que a Audi receba duas actualizações de homologação, sinalizando que se encontra mais de 4% abaixo da potência de referência dos motores Red Bull Powertrains DM01.
Döllner, contudo, desvaloriza o atraso deste componente: “Talvez a quantidade de pontos de aprendizagem tenha sido surpreendente, especialmente em termos operacionais, mas era claro que, sendo a nossa primeira unidade motriz, não estaríamos na linha da frente. Por outro lado, vejo com muito otimismo o trabalho feito no chassis, na aerodinâmica e no desempenho em curvas rápidas, o que é um ponto positivo.” O CEO revelou ainda que a Audi prossegue o processo de recrutamento para reforçar o departamento técnico em Hinwil, com programas de captação de jovens talentos oriundos das universidades, de modo a fortalecer a estrutura rumo ao teto orçamental.
A equipa sofreu recentemente um abalo com a saída de Jonathan Wheatley do cargo de diretor de equipa, depois de Adrian Newey o ter referenciado para a Aston Martin. Döllner comentou: “Ficámos surpreendidos com o desenvolvimento, mas reagimos rapidamente à nova situação. Aprendi que o mais importante na Fórmula 1 é ser flexível e reagir de forma positiva. Estamos muito contentes por ter o Allan (McNish) connosco e encontrámos rapidamente uma estrutura que funciona.”
Em termos financeiros, Döllner garantiu estabilidade, com o fundo soberano do Qatar a manter-se como acionista minoritário significativo: “Estamos estáveis do ponto de vista financeiro para os próximos anos. Poderia ser uma opção procurar mais parceiros, mas seria prematuro e não faz sentido nesta fase. O foco é desenvolver a equipa para o próximo nível, só depois poderemos ponderar outras opções.”
O envolvimento da Audi em Fórmula 1 já resultou num impacto além das pistas. O lançamento do superdesportivo Nuvolari, o mais potente da história da marca, foi possível graças ao conhecimento e dinâmica adquiridos na F1. Rouven Mohr, director técnico da Audi, explicou: “A Fórmula 1 tornou-se parte integrante do ADN da marca e trouxe uma motivação extraordinária à equipa. O desenvolvimento do Nuvolari em apenas 18 meses é reflexo do espírito e rapidez de decisão inspirados pela F1, demonstrando como a experiência de pista pode ser transportada para a estrada.”
O próximo desafio da Audi será o Grande Prémio da Áustria, onde a equipa procurará converter o ritmo competitivo em resultados concretos e consolidar o projeto a longo prazo. A luta pelo meio do pelotão permanece intensa, mas o objetivo de cimentar a Audi como protagonista da Fórmula 1 nos próximos anos mantém-se inalterado, com os olhos postos em 2030 como o ano da consagração.
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