Porsche está a inventar uma caixa manual… que não é manual
O essencial
- Porsche trabalha numa transmissão de dupla embraiagem que simula uma caixa manual completa com pedal de embraiagem.
- O sistema permite três modos de funcionamento: automático, sequencial e manual simulado através de software e hardware.
- A solução é aplicável tanto a veículos convencionais como a híbridos, segundo a documentação da patente.
Três modos em uma transmissão
A Porsche está a trabalhar numa solução que parece saída de um videojogo: uma caixa de dupla embraiagem que pode funcionar como automática, sequencial ou, através de software e hardware adicionais, simular uma transmissão manual completa.
Uma nova patente registada pela marca alemã descreve precisamente esse conceito. A base é uma transmissão automática de dupla embraiagem, mas o sistema permite ao condutor escolher entre três formas de utilização.
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No modo automático, tudo funciona como numa DCT convencional. O sistema trata das mudanças e o condutor limita-se a selecionar Drive, Reverse ou Neutral e a utilizar o acelerador e o travão.
Há depois um modo sequencial, em que o condutor assume o controlo das mudanças através das patilhas ou do seletor. É uma solução já habitual nas caixas de dupla embraiagem atuais.
A grande novidade surge no terceiro modo. Aqui, a Porsche pretende recriar o funcionamento de uma caixa manual, incluindo uma embraiagem acionada por um terceiro pedal. O seletor deixa de ter apenas posições momentâneas e passa a reproduzir um padrão de mudanças semelhante ao de uma caixa manual convencional.

Na prática, a transmissão continua a ser uma DCT, mas o sistema cria a interação necessária para que o condutor tenha de escolher a mudança e utilizar a embraiagem. A patente prevê ainda que o comportamento possa ser adaptado por software, permitindo simular diferentes características de uma transmissão manual.
A solução é particularmente interessante porque não depende exclusivamente de um motor de combustão. De acordo com a documentação da Porsche, o sistema poderá ser utilizado tanto em automóveis convencionais como em veículos híbridos.
A caixa manual como experiência digital
A caixa manual está a transformar-se numa experiência digital
Outras marcas exploram soluções semelhantes
A ideia não é completamente nova. Outros fabricantes estão a explorar soluções semelhantes para manter parte da interação de uma caixa manual numa indústria cada vez mais dominada pelas transmissões automáticas e pelos veículos eletrificados.
A Koenigsegg, por exemplo, desenvolveu a Light Speed Transmission, uma caixa capaz de combinar diferentes relações e modos de funcionamento numa arquitetura que permite uma utilização muito mais flexível do que uma transmissão convencional.
Também a Ferrari recorre a uma abordagem semelhante no 12Cilindri Manuale, permitindo ao condutor assumir o controlo das primeiras seis relações de uma caixa de dupla embraiagem de oito velocidades. Neste caso, o sistema procura até reproduzir alguns dos erros de uma caixa manual: uma utilização incorreta pode provocar solavancos ou fazer o motor parar.
A Hyundai também tem uma patente relacionada com uma transmissão manual simulada e tecnologia shift-by-wire, apontando para uma tendência que poderá ganhar importância sobretudo nos modelos eletrificados.
Para a Porsche, o objetivo parece ser juntar duas realidades que até agora estiveram separadas: a eficiência e rapidez de uma caixa automática de dupla embraiagem e a interação de uma transmissão manual.
Se a tecnologia chegar à produção, poderá permitir que um mesmo automóvel ofereça três experiências completamente diferentes ao volante — sem que seja necessário utilizar três transmissões distintas.
AutoGear · 468 artigos
Jornalista de automóveis, especializado em testes. É diretor da revista Comerciais & Pesados e o membro português do júri do International Truck of the Year. Editor dos sites da Revista Carros e Motores e da Revista Motos, e colaborador permanente do Jornal das Oficinas e da Revista dos Pneus, publicações de referência no pós-venda automóvel. Formado pela Universidade Autónoma de Lisboa. No AutoGear escreve sobre mercado, novidades e mobilidade elétrica.