Dois abandonos em dois Grandes Prémios consecutivos deixaram a Mercedes sob pressão, depois dos problemas elétricos que forçaram George Russell a desistir no Canadá e Andrea Kimi Antonelli a fazer o mesmo em Barcelona. Com ambos os Mercedes a cederem pouco depois de ultrapassagens em que foi exigida potência máxima ao sistema híbrido, a fiabilidade da unidade motriz da marca alemã está sob escrutínio, agitando o paddock e relançando dúvidas sobre a consistência da equipa para o resto do Campeonato do Mundo de Fórmula 1.
Nas últimas corridas, a Mercedes viu-se obrigada a abandonar em momentos decisivos. George Russell, após uma manobra agressiva no Grande Prémio do Canadá, foi obrigado a encostar devido a um apagão súbito do carro. Situação semelhante viveu Andrea Kimi Antonelli, piloto de testes e reserva, que viu a sua prova em Barcelona terminar abruptamente após exigir tudo do sistema elétrico no momento de defender posição. Ambos os incidentes ocorreram em circuitos exigentes, onde cada décimo é crucial e a fiabilidade do material pode ditar o desfecho do campeonato. Com estes resultados, a Mercedes perde terreno para a Red Bull e vê a Ferrari a aproximar-se perigosamente, especialmente depois do pacote de evoluções bem-sucedidas da Scuderia em Espanha.
Este duplo revés levanta questões sobre o real impacto dos problemas de bateria na performance global da Mercedes e coloca pressão adicional sobre os engenheiros de Brixworth. Segundo dados oficiais, os Mercedes perderam mais de 25 pontos nas últimas duas provas, o que pode revelar-se determinante na luta pelo título de construtores. A Ferrari, que se apresentou em Barcelona com um conjunto de atualizações aerodinâmicas e de chassis, reduziu significativamente o fosso para os alemães, tornando a luta pelo segundo lugar do campeonato cada vez mais renhida. A Red Bull mantém-se à frente, mas o jogo de forças no topo da Fórmula 1 está mais imprevisível que nunca.
James Allison, diretor técnico da Mercedes, não escondeu a preocupação mas também garantiu que o problema está identificado. “Penso que quem acompanha este desporto com atenção terá notado que este problema já afastou várias viaturas com unidade motriz Mercedes ao longo da época”, explicou Allison após a prova de Barcelona. “Nem todas as falhas são idênticas, mas, de certa forma, têm origem na mesma área geral da bateria. Acredito que a maioria das áreas de risco foi já identificada e, com alguma sorte, à medida que começarmos a introduzir gradualmente novos módulos ao longo do campeonato, a nossa situação como equipa deverá melhorar”.
O responsável técnico esclareceu ainda que o departamento de Brixworth está a trabalhar intensamente na resolução da questão, mas subsiste a dúvida sobre se as alterações ao módulo afetado poderão ser feitas ao abrigo das regras de fiabilidade, ou se a equipa terá de utilizar o seu valioso “token” de desenvolvimento ADUO a 2%. “Aceita-se que haverá sempre algum risco de avaria”, admitiu Allison, “mas procuramos garantir que as falhas ocorram nos testes ou nos bancos de ensaio e que sejam minimizadas em pista, onde cada ponto é precioso para o campeonato”.
Sobre a ameaça da Ferrari, Allison foi pragmático: “A Ferrari trouxe um pacote de atualizações para a corrida sem que tivéssemos uma resposta imediata. É natural que o fosso se reduza. Contudo, não estamos desarmados nesta batalha e, no momento certo, também o Mercedes W17 receberá as atualizações necessárias”.
Olhando para o futuro, a Mercedes enfrenta agora o desafio de recuperar a confiança na fiabilidade da sua unidade motriz antes do Grande Prémio da Áustria. Com a Ferrari a aproximar-se e a McLaren a mostrar sinais de vitalidade — tendo também sofrido episódios pontuais de anomalias elétricas —, a luta pelo pódio do campeonato de construtores promete ser intensa até ao final da época. A introdução dos novos módulos de bateria será decisiva para inverter a tendência negativa e permitir que Russell, Hamilton e Antonelli possam lutar pelos lugares cimeiros sem o fantasma das avarias. A próxima corrida será, assim, um teste crucial à capacidade de resposta técnica da Mercedes, numa fase em que cada ponto conquistado pode fazer toda a diferença na classificação final.
