Um novo estudo revela um paradoxo curioso: quem mais quilómetros faz está entre os maiores interessados nos eléctricos, enquanto a procura é mais forte fora das grandes cidades. E há outro dado que pode explicar muita coisa: 80% dos inquiridos dizem confiar mais na mobilidade eléctrica quando existe uma solução “tudo incluído”.
Há uma ideia que se instalou no debate sobre o carro eléctrico: as pessoas não compram porque têm medo de ficar sem bateria. Mas e se não for bem assim? E se a verdadeira barreira não estiver na tecnologia, mas no risco de comprar um automóvel eléctrico?
É precisamente esta uma das conclusões mais interessantes do segundo Observatório da Mobilidade Yoyomove, um estudo que procurou perceber o que está realmente a travar a transição para a mobilidade eléctrica e híbrida. E os resultados desmontam alguns dos clichés que continuam a dominar a discussão. O eléctrico não assusta tanto como parece O interesse existe. E é significativo.
Entre os inquiridos, 29% consideram activamente um automóvel eléctrico, enquanto outros 42% dizem estar abertos ou curiosos em relação à tecnologia. O problema aparece quando chega o momento de passar da curiosidade à compra: apenas 30,4% dizem sentir-se verdadeiramente preparados. É uma diferença importante.
Ou seja, o consumidor não está necessariamente a dizer “não quero um eléctrico”. Está antes a dizer “ainda não tenho a certeza de que seja a escolha certa para mim”. E essa hesitação acaba por beneficiar o híbrido. Quando questionados sobre o próximo automóvel, 35% apontam para uma motorização híbrida, enquanto apenas 9% escolheriam um eléctrico puro.
Para 77,2% dos utilizadores, aliás, o híbrido transmite maior segurança do que um automóvel 100% eléctrico. Não é, portanto, uma rejeição da electrificação. É uma transição feita com o pé no travão. E aqui aparece o primeiro paradoxo: o eléctrico pode fazer mais sentido fora da cidade Se há uma ideia que este estudo consegue virar do avesso é a de que o carro eléctrico é naturalmente mais adequado a quem vive numa grande cidade.
A maioria dos italianos — 74% — associa efectivamente o eléctrico à utilização urbana. Só que existe um problema bastante simples: carregar em casa é muito mais fácil fora das grandes cidades.
Nos grandes centros urbanos, apenas 32% dos residentes têm possibilidade de carregar o automóvel em casa. Nos municípios mais pequenos, essa percentagem sobe para 59%. E os resultados acompanham essa diferença.
A propensão para escolher um eléctrico é de apenas 42% nas grandes cidades, mas sobe para uns impressionantes 62% nos municípios de menor dimensão.
É um daqueles dados que parecem contradizer o senso comum, mas que fazem todo o sentido quando pensamos na vida real: ter um carro eléctrico pode ser mais fácil numa casa com garagem do que num apartamento no centro de uma grande cidade.
Quanto mais se conduz, maior pode ser o interesse pelo eléctrico Outro mito que o estudo coloca em causa é o de que os eléctricos interessam sobretudo a quem conduz pouco. Os dados dizem outra coisa. Entre os condutores que percorrem mais de 30.000 quilómetros por ano, 35% optam por um veículo 100% eléctrico. Entre quem faz menos de 10.000 quilómetros anuais, a percentagem fica-se pelos 19%.
Também os SUV aparecem no topo da procura: 81% dos seus condutores procuram uma motorização electrificada, contra 67% entre os utilizadores de automóveis urbanos mais pequenos.
A explicação pode estar precisamente no perfil de utilização. Quem conduz muito tende a prestar mais atenção aos custos de utilização, e é aí que a electrificação começa a ganhar atractivo. A autonomia pode ser mais medo do que necessidade É provavelmente um dos resultados mais curiosos de todo o estudo. Quando questionados sobre a autonomia necessária para se sentirem tranquilos, 67% dos inquiridos exigem pelo menos 450 km. Parece razoável.
Até olharmos para os quilómetros que efectivamente fazem. Metade da amostra percorre menos de 40 km por dia, o equivalente a cerca de 15.000 km por ano. Ou seja, muitos consumidores querem uma autonomia muito superior àquela de que provavelmente precisam no seu dia-a-dia.
E há uma pista ainda mais interessante: quando a conversa passa da teoria para uma possível decisão de compra, a autonomia deixa praticamente de aparecer como problema nas conversas espontâneas.
Isto sugere que a chamada “ansiedade da autonomia” pode ser, em boa medida, uma barreira psicológica. Não é necessariamente a bateria que assusta. É a dúvida sobre o que acontece se a bateria não chegar. O verdadeiro problema pode estar na compra E chegamos ao ponto central do estudo.
O preço é apontado como obstáculo por 57,8% dos inquiridos. A autonomia aparece logo depois, com 50,8%. Mas, por baixo destas duas preocupações, existe algo mais profundo: a falta de previsibilidade. Comprar um eléctrico ainda é, para muitos consumidores, entrar num território desconhecido. Quanto vai valer daqui a cinco anos? Quanto custará substituir a bateria? Como será a manutenção? Quanto vou gastar realmente? E se afinal o carro não se adaptar às minhas necessidades?
São perguntas que podem transformar uma compra normal numa decisão de risco. E é aqui que o aluguer de longa duração ganha relevância. “Tudo incluído” pode ser a chave para desbloquear o eléctrico Segundo o estudo, 77% dos inquiridos acreditam que o aluguer de longa duração pode facilitar a transição para a mobilidade eléctrica.Mais significativo ainda: 80,2% dizem que confiariam mais na mobilidade eléctrica através de uma solução “tudo incluído”. A razão é fácil de perceber.
Uma mensalidade previsível elimina boa parte da incerteza. A manutenção incluída retira outra preocupação. O seguro resolve mais uma variável. E a possibilidade de experimentar um eléctrico sem assumir imediatamente a propriedade permite descobrir se aquela tecnologia realmente funciona para cada pessoa.
Entre os factores mais valorizados estão a previsibilidade da mensalidade (53,8%), a manutenção incluída (46,9%), o seguro (38%) e a possibilidade de experimentar o automóvel sem o comprar (23,1%).
No fundo, o consumidor parece estar a pedir algo bastante simples: “Deixem-me experimentar sem obrigar-me a correr o risco.”
O conhecimento também muda tudo Há ainda outro factor decisivo: informação.
Entre aqueles que consideram elevado o seu conhecimento sobre automóveis eléctricos, a probabilidade de adopção chega aos 64%. Entre quem admite ter poucos conhecimentos, cai para 43%. É uma diferença demasiado grande para ser ignorada.
E as diferenças entre gerações também são claras. Os Millennials mostram abertura à mudança, mas 43% não têm onde carregar o automóvel. A Geração X surge como o grupo mais preparado para adoptar uma motorização electrificada, com 60% de intenção de escolha. Já entre os Boomers, 47% preferem começar por um híbrido.
Mais uma vez, a conclusão parece ser menos “não quero um eléctrico” e mais “quero ter a certeza de que isto funciona para mim”.
O eléctrico não está a ser rejeitado. Está a ser avaliado.
É provavelmente esta a principal conclusão que se pode retirar do segundo Observatório da Mobilidade Yoyomove.
A transição para o eléctrico parece estar a avançar, mas não da forma linear que muitas vezes se imagina.
O consumidor está interessado. Está curioso. Está disposto a mudar.
Mas quer menos risco, mais informação e maior previsibilidade.
E isso ajuda a explicar por que razão o híbrido continua a ser visto como uma espécie de ponte para o eléctrico e por que razão soluções de aluguer de longa duração podem ganhar importância nos próximos anos.
No fundo, o grande obstáculo pode não ser a autonomia.
Pode nem sequer ser o preço.
Pode ser o medo de gastar dinheiro numa tecnologia que ainda não se conhece suficientemente bem.
E se for esse o verdadeiro problema, então a forma mais rápida de acelerar a adopção do eléctrico poderá não passar apenas por baterias maiores ou carregamentos mais rápidos.
Pode passar simplesmente por tornar a decisão de experimentar muito menos arriscada.
Não perca um segundo da Fórmula 1, Nascar, IndyCar e muito mais na aplicação mais completa do Mundo, basta carregar – AQUI (GRATUITO)

