Acordo histórico, cartas permanentes e direitos de voto para as equipas – foi este o desfecho surpreendente do conflito judicial que abalou a NASCAR há sete meses. A decisão, forçada pelo processo movido pela 23XI Racing e pela Front Row Motorsports, não só evitou uma sentença potencialmente catastrófica para a organização, como mudou para sempre o equilíbrio de poder na modalidade. Mas agora, enquanto se dissipam as ondas de choque, Justin Marks, co-proprietário da Trackhouse Racing, ergue a voz e questiona: “O que é que vamos realmente fazer?”
No rescaldo do acordo, as equipas conquistaram cartas permanentes – uma espécie de licença vitalícia para competir, valorizável e transmissível no mercado – e passaram a receber parte das receitas internacionais dos direitos televisivos e um terço de todas as receitas de propriedade intelectual, abrangendo merchandising, videojogos e licenciamento digital. Além disso, qualquer alteração às regras das cartas exige agora uma maioria qualificada de dois terços das equipas, um poder de veto impensável até há pouco tempo. Tudo isto foi resultado do Grande Prémio judicial – expressão que ficou marcada na história do campeonato norte-americano – e abriu uma nova era de corresponsabilidade no seio da NASCAR.
Contudo, Justin Marks, que acompanhou de perto todas estas mudanças, mostra-se pouco impressionado com o ritmo da implementação. Em declarações ao jornalista Jeff Gluck, não escondeu a frustração: “Francamente, estou cansado de ouvir as pessoas dizerem que temos de trabalhar juntos para fazer crescer a modalidade. Está bem – mas o que é que vamos realmente fazer?” Apesar da criação de novos grupos de trabalho, onde as equipas participam em decisões de televisão, marketing e hospitalidade, e do aumento da transparência por parte do CEO da NASCAR, Steve O’Donnell, Marks sente que as boas intenções continuam a não se traduzir em resultados concretos. “Andamos há cinco anos a dizer as coisas certas”, sublinhou.
O empresário identifica dois entraves principais ao progresso. Por um lado, a falta de tempo: “Os proprietários das equipas estão focados em ganhar corridas – é esse o nosso trabalho. Arranjar espaço na agenda para pensar no futuro da modalidade, fora das reuniões agendadas, é um desafio quando o domingo está sempre à porta.” Por outro, a cultura de rivalidade: “Todos concordam em colaborar, partilhar ideias e ajudar a modalidade a crescer. Mas, mal saem da sala, regressam à luta pelo pódio. A colaboração funciona até ao momento em que começa a parecer uma desvantagem competitiva.”
A tensão persiste e o relógio não pára. O actual acordo de direitos televisivos tem os dias contados e, quando chegarem as negociações para a renovação, a NASCAR precisa de apresentar números de crescimento reais – não apenas promessas de cooperação. “O tempo está a passar depressa”, avisa Marks, que cita o exemplo de Jensen Huang, CEO da Nvidia, para ilustrar a disciplina necessária: “Todos os dias, diz a si próprio que a empresa só tem dinheiro para 30 dias. Não é verdade, mas obriga a decisões rápidas e execução implacável. É assim que a NASCAR deve operar.”
A base estrutural está sólida, as equipas conquistaram uma influência sem precedentes e os grupos de trabalho estão activos. Mas Marks exige mais: métricas, prazos, indicadores de desempenho – provas tangíveis de que as ideias se transformam em acção. “Vamos ver como corre”, concluiu, deixando no ar a impaciência de quem espera há cinco anos por mudança real.
O próximo grande teste está à porta: a renovação dos direitos televisivos, fundamental para a sustentabilidade das equipas e para a atracção de novos patrocinadores. O desfecho deste processo poderá ditar se a NASCAR consegue finalmente ultrapassar o impasse de boas intenções e transformar a nova era de governação partilhada em resultados concretos dentro e fora das pistas. Até lá, o paddock aguarda, expectante, para ver se as equipas aproveitam o poder que conquistaram – ou se tudo se resume, mais uma vez, a palavras sem acção.
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