O regresso da Honda à Fórmula 1 este ano ficou marcado pela resolução de um dos maiores problemas que afectava a Aston Martin: as severas vibrações no AMR26, que ameaçavam não só o desempenho, mas também a integridade física dos seus pilotos. O aproveitamento de uma pausa forçada de cinco semanas no calendário revelou-se decisivo para ultrapassar esta limitação, permitindo à Honda intervir de forma cirúrgica e resolver uma questão que ameaçava comprometer toda a época da equipa britânica.
A Aston Martin, que partiu para 2024 com ambições de se afirmar entre as principais equipas, viu-se relegada para o fundo da tabela após sucessivos problemas de fiabilidade e performance do novo sistema híbrido de 50-50 desenvolvido pela Honda. O caso tornou-se particularmente grave devido às vibrações extremas geradas pelas baterias, que, segundo o lendário Adrian Newey, punham em risco a saúde de Fernando Alonso e Lance Stroll. Os sintomas atingiram o auge na ronda de Xangai, obrigando Alonso a abandonar prematuramente a corrida. Só em Suzuka, na terceira prova do ano, é que se começou a notar uma melhoria, com o espanhol a conseguir finalmente cruzar a linha de meta.
A paragem competitiva – provocada pelo cancelamento dos Grandes Prémios da Arábia Saudita e do Bahrein devido à instabilidade geopolítica na região – trouxe um inesperado benefício técnico. Segundo explicou Shintaro Orihara, engenheiro-chefe da Honda para as operações de pista, a ausência de corridas deu à equipa a oportunidade de transportar o AMR26 para Sakura, base japonesa da Honda, onde foi possível realizar testes aprofundados longe da pressão mediática e do cronómetro. “Havia um lado positivo e outro negativo no cancelamento das duas corridas”, começou por referir Orihara, em declarações exclusivas em Monte Carlo. “O negativo foi perdermos a oportunidade de aprender mais sobre gestão de energia e fiabilidade da refrigeração em contexto de corrida, que são sempre experiências valiosas. Por outro lado, o positivo foi podermos levar o carro de corrida para Sakura, algo que teria sido impossível se as provas tivessem acontecido.”
Durante essas cinco semanas, Orihara e a sua equipa centraram todos os esforços em validar uma solução teórica para o problema das vibrações. “Já tínhamos uma ideia para melhorar, mas só com o carro na fábrica conseguimos realizar testes e recolher dados”, detalhou o engenheiro japonês. “Sentimos logo uma redução nos níveis de vibração. Eu próprio e outros engenheiros sentámo-nos no carro, no banco de ensaio, e os dados deram-nos confiança de que estávamos na direcção certa.” O desafio seguinte foi preparar e implementar as modificações a tempo do Grande Prémio de Miami, num calendário bastante apertado. “Tivemos de aplicar alterações de grande dimensão, mas conseguimos cumprir o plano”, sublinhou Orihara.
A melhoria foi notória: Alonso pontuou em Monte Carlo, somando o único ponto da Aston Martin até ao momento, e os abandonos sucessivos por falhas mecânicas diminuíram consideravelmente. A Honda, por sua vez, reforçou a sua colaboração técnica com a equipa de Silverstone, preparando-se para introduzir novas evoluções no AMR26, tirando partido da elegibilidade para o programa ADUO da FIA. “Continuamos a trabalhar em conjunto para trazer mais soluções e melhorias”, assegurou o responsável nipónico.
No contexto do campeonato, esta intervenção permitiu à Aston Martin evitar uma crise ainda maior e manter-se na luta pelos pontos, mesmo que a distância para os líderes da tabela continue significativa. As próximas corridas serão decisivas para perceber se a fiabilidade agora conquistada se traduzirá em melhores resultados e numa recuperação de posições no Mundial de Construtores. O próximo desafio será no Grande Prémio do Canadá, onde se espera que as evoluções implementadas pela Honda possam finalmente dar à Aston Martin o impulso necessário para deixar para trás o rótulo de “lanterna vermelha” e regressar à disputa do pelotão intermédio. Até lá, a pressão permanece sobre a dupla Alonso-Stroll e sobre a Honda, que sabe que cada milésimo conta numa Fórmula 1 cada vez mais competitiva.
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