Sebastien Buemi vê-se perante o maior desafio da sua carreira recente em monolugares eléctricos: os conflitos entre os calendários do Mundial de Resistência (WEC) e da Fórmula E para 2027 podem ser o ponto final na sua presença simultânea nas duas competições. O campeão de Fórmula E em 2015-16, no entanto, recusa baixar os braços: “Vou lutar muito para fazer tudo o que puder para estar na grelha no próximo ano, e depois logo se vê. Mas não vou desistir. Vou lutar muito”, garantiu Buemi, deixando clara a sua determinação em prolongar uma carreira que já soma 12 temporadas na disciplina eléctrica.
O novo calendário apresentado este mês por ambas as organizações volta a trazer dois embates diretos entre as séries, algo habitual devido à sobreposição de interesses e à presença de vários pilotos em ambos os campeonatos. O primeiro conflito acontece em meados de maio, quando o duplo evento de Fórmula E no Mónaco coincide com as 6 Horas de Spa do WEC. O segundo embate está marcado para julho, com a ronda dupla de Xangai em Fórmula E a realizar-se no mesmo fim de semana das 6 Horas de Interlagos. Buemi, piloto oficial da Toyota no WEC, está sujeito à prioridade da marca japonesa, o que pode obrigá-lo a faltar a quatro das 21 corridas da Fórmula E em 2027, comprometendo a luta pelo campeonato com a Envision Racing, equipa cliente da Jaguar.
A situação não é inédita. Em julho de 2025, Buemi abdicou de Interlagos no WEC para disputar a dupla jornada de Berlim em Fórmula E, mas no ano anterior, numa colisão entre Berlim e Spa em maio, foi Berlim que ficou sem o suíço, substituído por Paul Aron, agora piloto de reserva da Alpine F1. A diferença? Uma das datas calhou antes das 24 Horas de Le Mans e a outra após a mítica prova francesa. Em 2027, os conflitos surgem dos dois lados de Le Mans, tornando a decisão ainda mais difícil para piloto e equipas.
O contexto competitivo torna esta questão particularmente sensível. Buemi é peça-chave tanto para a Toyota no WEC como para a Envision na Fórmula E, onde a equipa deseja que os seus pilotos priorizem integralmente o campeonato eléctrico. Sylvain Filippi, diretor da Envision, abordou o tema com cautela: “Vamos analisar a situação assim que tivermos os calendários definidos. Já estou nisto há tempo suficiente para saber que há sempre mudanças e que os calendários são muito complicados e políticos. Só quando tivermos certezas é que tomaremos uma decisão. Agora é impossível saber.” A Envision procura manter o alinhamento para a próxima época, com Joel Eriksson a preparar-se para uma segunda temporada ao lado de Buemi.
A problemática das datas não afeta apenas Buemi. Nyck de Vries, colega de equipa do suíço na Toyota no WEC, poderá enfrentar cenário semelhante, embora a Mahindra, equipa de De Vries na Fórmula E, se mostre mais flexível na substituição de pilotos em caso de sobreposição. Mahindra tem Jake Hughes e Kush Maini como reservas e ambos deverão participar nos testes do novo monolugar Gen4. Já as equipas associadas à Stellantis, como a Citroën e a Peugeot, parecem dispor de maior margem de manobra, podendo utilizar apenas dois pilotos por carro no WEC se necessário. Nick Cassidy, por exemplo, tem prioridade total para correr em Fórmula E ao abrigo do seu contrato com a Stellantis. Stoffel Vandoorne, que deverá regressar à Fórmula E pela Jaguar, não é esperado no WEC em 2027.
A discussão sobre conflitos de calendário entre Fórmula E e WEC remonta ao início da era eléctrica, com a temporada 2016-17 a ser paradigmática: Buemi perdeu o penúltimo evento em Nova Iorque devido a compromissos no WEC, acabando por perder o título para Lucas di Grassi, episódio que ainda hoje lamenta. Esse foi também o caso de José María López, colega de Buemi na Toyota e então piloto DS Virgin, que falhou Nova Iorque pelo mesmo motivo. As extensões de calendário em ambas as disciplinas têm tornado estes conflitos inevitáveis, levando a mais ausências forçadas.
Do lado dos organizadores, não há ilusões quanto às prioridades. Jeff Dodds, CEO da Fórmula E, é claro: “O nosso foco é minimizar o impacto nas audiências e crescimento da base de fãs. Infelizmente, a nossa principal prioridade não é garantir que os pilotos consigam correr em múltiplas séries. É bom se conseguirem, mas não é o nosso objectivo.” Dodds confirma que houve discussões com o WEC durante a elaboração dos calendários, mas reconhece ser impossível evitar todos os conflitos: “Reunimo-nos com o WEC, compreendemos os calendários uns dos outros, mas não há forma de evitar completamente estes embates.”
O futuro de Buemi na Fórmula E, e de outros pilotos com dupla presença, joga-se agora nos bastidores, entre negociações contratuais e decisões estratégicas das equipas. Segue-se uma época de incertezas, com o paddock atento às decisões dos intervenientes. A próxima prova do Mundial de Resistência pode já ditar pistas sobre as escolhas de Buemi e De Vries, enquanto a Fórmula E prepara o arranque da era Gen4, onde a estabilidade de plantéis poderá ser decisiva para a luta pelos títulos. Num cenário em que a história se repete, a capacidade de adaptação dos pilotos e equipas será testada ao limite, podendo redesenhar o mapa competitivo das duas maiores disciplinas de monolugares eléctricos e híbridos do mundo.
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