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Toyota quer salvar os motores ICE com combustíveis renováveis e propõe novas regras à UE

Publicado a 19 de Outubro de 2026, 07h30  ·  6 min de leitura

O essencial

  • Toyota propõe criação de categoria VEEF para automóveis com combustíveis renováveis exclusivos.
  • Projeto-piloto em Espanha testou 20 veículos com gasolina renovável de resíduos orgânicos.
  • Combustíveis drop-in compatíveis com motores atuais sem alterações mecânicas significativas.

A marca japonesa defende a criação de uma nova categoria de homologação para automóveis que utilizem exclusivamente combustíveis renováveis. O objetivo é reduzir as emissões da frota que já circula na Europa, sem depender apenas da chegada de novos carros elétricos.

E se o futuro do automóvel não passasse exclusivamente pelos carros elétricos? A Toyota quer que a Europa considere mais uma alternativa na estratégia de descarbonização dos transportes: manter os motores de combustão, mas alimentá-los com combustíveis renováveis capazes de reduzir as emissões ao longo do seu ciclo de vida.

A proposta passa pela criação de uma nova categoria regulamentar, designada VEEF (Vehicles running Exclusively on Eligible Fuels), que poderá ser traduzida como «veículos que funcionam exclusivamente com combustíveis elegíveis». O objetivo é reconhecer os automóveis que utilizem apenas combustíveis renováveis e criar um enquadramento específico para o seu contributo para a redução das emissões de gases com efeito de estufa.

A Toyota argumenta que esta abordagem permitiria aproveitar uma parte significativa da frota automóvel existente, em vez de depender exclusivamente da substituição progressiva dos motores térmicos por sistemas de propulsão elétricos.

Porque manter os motores a combustão?

Porque é que a Toyota quer manter os motores a combustão?

A eletrificação está a transformar a indústria automóvel, mas a renovação de todo o parque circulante é um processo demorado. Milhões de automóveis a gasolina e gasóleo continuarão a circular nas estradas europeias durante muitos anos, mesmo com o aumento das vendas de veículos elétricos.

É precisamente aqui que entra a proposta da Toyota. Em vez de concentrar os esforços apenas na substituição dos automóveis existentes, a marca considera que também é necessário reduzir as emissões dos veículos que já estão em circulação.

A empresa aponta para uma frota europeia de cerca de 300 milhões de veículos com motores de combustão, defendendo que os combustíveis renováveis poderão ajudar a diminuir a sua pegada carbónica sem exigir a troca imediata do automóvel.

Importa, contudo, distinguir dois aspetos: um motor de combustão alimentado com combustível renovável continua a emitir gases pelo escape, incluindo dióxido de carbono. A diferença está na origem do carbono e no balanço de emissões ao longo do ciclo de vida do combustível. A neutralidade carbónica depende, por isso, da forma como este é produzido, da energia utilizada no processo e das emissões associadas à distribuição.

Combustíveis renováveis de segunda geração

O que são os combustíveis renováveis de segunda geração?

Uma das soluções defendidas pela marca são os biocombustíveis de segunda geração, produzidos a partir de matérias-primas como resíduos orgânicos e agrícolas, em vez de dependerem diretamente de culturas destinadas à alimentação.

Estes materiais podem ser transformados em combustíveis capazes de alimentar motores de combustão, dando uma nova utilização a recursos que, de outra forma, poderiam ser desperdiçados.

Os biocombustíveis distinguem-se dos combustíveis sintéticos, conhecidos como e-fuels, produzidos através de processos industriais que combinam hidrogénio e carbono. Embora ambas as soluções possam contribuir para reduzir as emissões, os processos de produção, os custos e as necessidades energéticas são diferentes.

A Toyota considera que os biocombustíveis de segunda geração poderão ser mais económicos de produzir e permitir aproveitar a infraestrutura existente, desde a rede de distribuição até às estações de serviço.

A empresa estima ainda que a biomassa disponível na Europa poderá sustentar uma parte significativa da frota com motores de combustão até 2040. Esta projeção depende, no entanto, da disponibilidade de matérias-primas sustentáveis, da capacidade de produção e da concorrência com outras utilizações da biomassa.

Abastecer como habitualmente, sem transformar o automóvel

Um dos principais argumentos desta abordagem é a possibilidade de utilizar combustíveis compatíveis com os motores atuais, conhecidos como drop-in.

Na prática, determinados combustíveis renováveis podem ser utilizados em veículos existentes sem alterações mecânicas significativas, desde que cumpram as especificações exigidas pelo fabricante. A distribuição também poderá recorrer à infraestrutura já instalada, evitando a necessidade de construir uma rede inteiramente nova para o seu abastecimento.

Ainda assim, nem todos os biocombustíveis são compatíveis com todos os automóveis. A utilização depende das características do combustível e das especificações de cada motor.

Projeto-piloto em Espanha testa a tecnologia

Projeto-piloto em Espanha testa a tecnologia

A proposta é acompanhada por iniciativas destinadas a demonstrar a viabilidade dos combustíveis renováveis em condições reais. O projeto-piloto descrito na informação de origem envolveu cerca de 20 veículos de produção em Espanha, alimentados com gasolina renovável produzida a partir de resíduos orgânicos.

A iniciativa contou com a participação da Toyota, da BMW, da Bosch e da Repsol, procurando avaliar a utilização destes combustíveis sem modificações profundas nos veículos.

Um dos desafios passa por garantir que o combustível utilizado tem efetivamente a origem renovável declarada. Para isso, os sistemas de rastreabilidade e verificação digital podem ajudar a acompanhar a sua origem e a confirmar o cumprimento dos critérios estabelecidos.

Mais do que demonstrar que um motor consegue funcionar com combustível renovável, será necessário provar que este é produzido de forma sustentável e que permite reduzir efetivamente as emissões.

O que mudaria com a categoria VEEF?

A criação da categoria VEEF permitiria, segundo a proposta da Toyota, distinguir os automóveis que funcionassem exclusivamente com combustíveis elegíveis e reconhecer o seu contributo para a descarbonização.

A marca pretende que estes veículos tenham um enquadramento regulamentar que considere as emissões ao longo do ciclo de vida do combustível, aproximando o tratamento dado a estas soluções do aplicado aos veículos elétricos a bateria.

Isso não significa, porém, que um automóvel a combustão passe automaticamente a ser equivalente a um elétrico em termos ambientais. Os veículos elétricos não produzem emissões de escape durante a condução, enquanto os motores térmicos continuam a libertar gases. Uma comparação rigorosa exige considerar também a produção do combustível ou da eletricidade, o fabrico do veículo e a utilização ao longo do tempo.

Além disso, a VEEF ainda é uma proposta, não uma categoria já aprovada pela União Europeia. A sua eventual implementação exigirá critérios de elegibilidade, métodos de cálculo das emissões e mecanismos de fiscalização.

Novo Corolla híbrido poderá estrear tecnologia mais eficiente

A Toyota está também a desenvolver uma nova geração de sistemas híbridos otimizados para combustíveis renováveis. Segundo a informação divulgada, esta tecnologia poderá reduzir o consumo de combustível em cerca de 15% face aos sistemas híbridos atuais.

A estreia comercial estará prevista para a próxima geração do Toyota Corolla, apontada para os próximos três anos. Faltam, contudo, dados técnicos que permitam perceber como será alcançada essa melhoria e em que condições poderá ser medida.

A estratégia mostra que a marca japonesa pretende continuar a desenvolver diferentes soluções de propulsão, combinando eletrificação, eficiência dos motores e combustíveis alternativos.

O futuro poderá passar por várias soluções

A proposta VEEF coloca uma questão importante: como reduzir as emissões não apenas dos automóveis novos, mas também dos milhões de veículos que já circulam nas estradas europeias?

Para a Toyota, os combustíveis renováveis podem fazer parte da resposta, desde que sejam produzidos de forma sustentável, disponibilizados a preços competitivos e sujeitos a mecanismos rigorosos de rastreabilidade.

Existem, contudo, limitações. A quantidade de biomassa sustentável é finita, a produção de combustíveis renováveis exige energia e recursos, e a redução das emissões depende de todo o processo. Além disso, estas soluções devem ser comparadas com alternativas como a eletrificação direta, geralmente mais eficiente no aproveitamento da energia.

A iniciativa da Toyota não significa o fim dos carros elétricos nem garante a continuidade dos motores de combustão nas condições atuais. Representa uma tentativa de incluir mais uma tecnologia na discussão europeia sobre a descarbonização.

Se a proposta avançar, o verdadeiro teste será demonstrar que estes combustíveis podem ser produzidos em quantidade suficiente, a preços razoáveis e com reduções de emissões comprovadas. Até lá, a VEEF permanece uma proposta que poderá influenciar o debate, mas que ainda não constitui uma nova regra da União Europeia.

Ricardo Carvalho

AutoGear  ·  661 artigos

Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).

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