Há carros que ficam na história pela potência, outros pelo luxo e outros simplesmente porque fizeram parte da vida de milhões de pessoas. O Citroën AX pertence claramente à última categoria. Pequeno, leve, económico e com uma simplicidade quase impossível de encontrar nos automóveis atuais, o citadino francês está a celebrar 40 anos.
Quando chegou ao mercado, em 1986, tinha uma missão complicada: ocupar o espaço deixado por vários modelos da Citroën e, ao mesmo tempo, encontrar o seu próprio lugar numa gama onde já existiam o 2CV, o Visa, o Dyane, o LN e o LNA.

E havia ainda outro problema: o grupo PSA precisava desesperadamente de acertar no lançamento. A empresa atravessava uma fase financeira muito complicada e tinha dois projetos fundamentais para recuperar terreno: o Peugeot 205 e o Citroën BX. O AX seria o pequeno da família, mas tinha de evitar entrar em guerra direta com o 205. A solução acabou por ser um carro extremamente simples, mas muito inteligente.
O projeto arrancou internamente com o nome S9 e beneficiou de uma tecnologia que ainda estava a dar os primeiros passos na indústria automóvel: a conceção assistida por computador. A Citroën utilizou ferramentas digitais para otimizar a estrutura e reduzir o peso ao máximo.
O AX media apenas 3,53 metros e, nas versões mais básicas, pesava uns incríveis 630 kg. Mesmo nas configurações mais equipadas, ficava abaixo dos 850 kg. Para perceber o que isso significa, basta pensar que hoje existem pequenos SUV elétricos que pesam mais do dobro.
A eficiência também era uma das grandes armas do AX. A carroçaria foi cuidadosamente desenhada e conseguiu um coeficiente aerodinâmico de apenas 0,31, um valor muito interessante para a época. Até a traseira totalmente em vidro ajudava a reduzir peso e simplificar a construção.
E havia uma razão para toda esta obsessão com eficiência: a Citroën queria criar um automóvel económico numa altura em que o consumo de combustível tinha voltado a ser uma preocupação importante. Curiosamente, o AX poderia ter sido muito diferente.
O projeto original apontava para uma carroçaria de estilo monovolume, muito antes de este formato se tornar popular. A ideia acabou por ser abandonada depois de os estudos de mercado mostrarem que os potenciais clientes não estavam propriamente apaixonados pela solução.
O AX que conhecemos acabou por ter uma carroçaria muito mais convencional e, pouco depois do lançamento, ganhou uma versão de cinco portas, aumentando consideravelmente o seu potencial comercial.

Apesar da imagem de pequeno citadino racional, o AX rapidamente mostrou que também sabia divertir. Em 1987 apareceram o AX Sport e o AX GT, com 95 e 85 cv, respetivamente. O Sport era praticamente um pequeno brinquedo de competição para a estrada: pesava apenas 715 kg e conseguia atingir 100 km/h em 8,8 segundos.
Mais tarde apareceu o AX GTI, com 100 cv, que levou ainda mais longe a fórmula do pequeno carro leve e relativamente potente. Também houve espaço para versões diesel, uma variante de quatro rodas motrizes e uma enorme quantidade de séries especiais. Entre elas estiveram nomes como K-Way, Air France Madame e Spot. Ou seja, havia praticamente um AX para cada tipo de cliente.
E a Citroën chegou mesmo a experimentar uma versão elétrica. Em 1995 surgiu o AX elétrico, destinado sobretudo a organismos e administrações públicas. Ainda estava muito longe daquilo que hoje entendemos como um automóvel elétrico, mas mostrava que a marca já estava a explorar esse caminho.
O AX acabou por permanecer no mercado entre 1986 e 1998 e foi produzido em vários países, incluindo França, Espanha, Portugal e Marrocos. No total, foram fabricadas mais de 2,5 milhões de unidades.
É um número impressionante, sobretudo quando comparado com os cerca de 350 mil exemplares produzidos dos LN e LNA.
E apesar de ter vivido constantemente à sombra de modelos como o Peugeot 205 e o Renault Supercinq, o AX conseguiu construir uma identidade própria.
Na Malásia, o modelo foi produzido sob licença pela Proton com o nome Tiara. A experiência, no entanto, ficou muito longe do sucesso europeu: foram construídas menos de 30 mil unidades.
Hoje, quatro décadas depois da sua estreia, o AX continua a ser um daqueles carros que parecem cada vez mais interessantes à medida que os automóveis modernos ficam maiores, mais pesados e mais complexos.
3,53 metros de comprimento, pouco mais de 600 kg, motores simples e uma preocupação quase obsessiva com o consumo.
O Citroën AX não precisava de grandes ecrãs, centenas de cavalos ou sistemas eletrónicos para cumprir a sua missão.
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