Porsche troca a Volkswagen pela Xpeng para cumprir metas de CO₂ na Europa

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A Porsche acaba de tomar uma decisão pouco habitual e que diz muito sobre a complexidade da transição para o automóvel elétrico na Europa. A marca alemã vai deixar de agrupar as suas emissões de CO₂ com o resto do Grupo Volkswagen e passará a fazê-lo com a fabricante chinesa Xpeng durante 2026 e 2027.

A mudança foi confirmada em documentos da Comissão Europeia e significa que a Porsche terá agora um acordo próprio de pooling de emissões com a Xpeng, permitindo às duas marcas contabilizar conjuntamente as emissões das suas novas matrículas para efeitos das regras europeias. E há aqui um detalhe particularmente interessante: a Volkswagen detém cerca de 5% da Xpeng.

Porsche e Xpeng no mesmo «pool»

Na prática, o sistema de pooling permite que diferentes fabricantes juntem as suas frotas para calcular uma média conjunta de emissões de CO₂. Para a Porsche, esta alteração significa sair do agrupamento liderado pela Volkswagen e passar a integrar um agrupamento aberto com a Xpeng.

A Porsche confirmou o acordo ao Handelsblatt, explicando que a solução oferece alguma «flexibilidade na transição para a mobilidade elétrica», embora garanta que a estratégia de longo prazo da marca não muda. A empresa continua a afirmar que pretende investir na eletrificação, em novas tecnologias e na redução das emissões através dos seus próprios produtos.

Mas os números atuais ajudam a perceber por que razão esta flexibilidade pode ser importante.

As vendas de elétricos da Porsche estão a cair

Segundo dados da Schmidt Automotive Research, as vendas de veículos 100% elétricos da Porsche na Europa Ocidental caíram quase 30% em 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Os elétricos representam agora aproximadamente 30% das matrículas da Porsche na região, quando no ano passado chegavam perto dos 40%.

Ao mesmo tempo, a marca está a rever a sua estratégia de produto e prepara-se para apostar novamente em modelos equipados com motores de combustão.

Um dos exemplos é o futuro modelo posicionado abaixo ou em torno do segmento do Macan, que deverá contar com uma motorização convencional.

É uma mudança significativa para uma marca que, há poucos anos, parecia estar a acelerar fortemente rumo a uma gama cada vez mais eletrificada.

E a Xpeng pode sair a ganhar

Do outro lado deste acordo está uma marca chinesa que está precisamente a fazer o percurso contrário. A Xpeng está a aumentar rapidamente a sua presença na Europa e terá entregado quase 20.000 veículos na Europa Ocidental apenas nos primeiros seis meses de 2026.

As previsões apontam para cerca de 50.000 unidades durante todo o ano, impulsionadas sobretudo pela chegada de modelos de maior volume, como o L03.

Se estas previsões se confirmarem, a Xpeng poderá mesmo ultrapassar a Polestar em número de matrículas na Europa Ocidental ainda este ano. É aqui que o acordo com a Porsche ganha outra dimensão.

Uma fabricante com uma gama relativamente pesada em emissões junta-se a outra que está a vender cada vez mais elétricos. No papel, é uma combinação que pode ajudar ambas as partes a cumprir os objetivos regulamentares europeus. Por que razão a Porsche saiu do grupo Volkswagen? Esta é provavelmente a parte mais interessante da história.

A Volkswagen tem um enorme desafio pela frente para cumprir as metas europeias de CO₂. Em 2025, o Grupo registou uma média de 100 g/km, acima da meta específica de 93,6 g/km. A saída da Porsche do pool pode aliviar parte dessa pressão.

A Porsche possui uma gama com emissões médias superiores às de várias outras marcas do grupo, pelo que retirar esses veículos da equação permite reduzir a média de emissões do agrupamento restante. Ao mesmo tempo, a Porsche passa a gerir a sua própria situação através do acordo com a Xpeng.

E isto acontece num momento em que as regras europeias permitem aos fabricantes utilizar precisamente este tipo de mecanismos para cumprir os objetivos de emissões.

Um acordo que diz muito sobre o mercado europeu

O mais curioso é que esta história coloca, de certa forma, Porsche, Volkswagen e Xpeng no mesmo tabuleiro, apesar de estarem a seguir estratégias bastante diferentes.

A Volkswagen continua a lidar com a enorme dimensão do seu grupo e com a necessidade de reduzir as emissões médias de uma das maiores gamas automóveis da Europa. A Porsche está a tentar encontrar um equilíbrio entre a eletrificação e a procura real dos clientes. E a Xpeng está a aproveitar o crescimento dos elétricos para aumentar a sua presença no mercado europeu.

O acordo deverá vigorar em 2026 e 2027, precisamente os anos em que os fabricantes terão de gerir as suas médias de emissões dentro do atual mecanismo de conformidade europeu. No fundo, não estamos apenas perante uma mudança administrativa.

É mais um sinal de que as regras de CO₂ estão a obrigar os fabricantes a procurar soluções cada vez mais criativas para equilibrar vendas, emissões e estratégia de produto.

E neste caso, o resultado é particularmente curioso: a Porsche, uma das marcas mais icónicas do Grupo Volkswagen, vai cumprir as regras europeias ao lado de uma fabricante chinesa de elétricos na qual a própria Volkswagen tem uma participação.

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