A bandeira vermelha mais rápida da temporada e uma sucessão de penalizações controversas deixaram o paddock da Fórmula E em Sanya completamente perplexo, numa prova que ficará marcada não só pelo caos em pista, mas também pelas decisões da direcção de corrida. O E-Prix de Sanya, disputado nas ruas da capital da ilha de Hainan, não só foi interrompido abruptamente na volta 19, como viu as classificações finais completamente baralhadas por penalizações que alteraram o pódio várias vezes após a bandeira de xadrez.
No final, a vitória foi atribuída a Jake Dennis, da Andretti, após uma corrida que durou 28 voltas e ficou marcada por múltiplos incidentes e decisões polémicas. O britânico terminou com uma vantagem mínima, numa grelha que viu António Félix da Costa (Jaguar) cruzar a meta em segundo, mas ser depois relegado para quarto devido a uma penalização de cinco segundos. O segundo lugar acabou por ficar nas mãos de Pepe Martí, enquanto Nyck de Vries (Mahindra) beneficiou de uma reviravolta nas penalizações para garantir o terceiro posto. O tempo da volta mais rápida foi registado por Pascal Wehrlein (Porsche) com 1:08.401, ainda que o alemão tenha sido penalizado por contacto com outro piloto. O evento, inserido na temporada 2024 do Campeonato Mundial de Fórmula E, decorreu num traçado citadino conhecido pela sua exigência técnica e zonas de ultrapassagem limitadas.
Este resultado tumultuoso tem impacto directo na luta pelo título. Jake Dennis reforça a sua liderança no campeonato, aproveitando as confusões para somar pontos vitais. Pelo contrário, Félix da Costa vê-se prejudicado numa fase crucial, perdendo pontos importantes para os rivais directos. A consistência — ou falta dela — nas decisões dos comissários voltou a ser tema central, com pilotos e responsáveis de equipa a manifestarem abertamente o seu desagrado. A forma como a bandeira vermelha foi rapidamente accionada após o incidente entre Zane Maloney e Mitch Evans na curva 9, sem que houvesse danos visíveis ou feridos, levantou dúvidas quanto ao critério aplicado. Muitos defendem que uma situação de full course yellow teria sido suficiente, com o próprio Félix da Costa a afirmar: “Podiam ter esperado um pouco, tinham margem para tentar. Penso que todos os carros conseguiram sair dali, certo? Não percebo por que tivemos bandeira vermelha, mas há muita coisa que não percebo nestas decisões.”
O director da Andretti, Roger Griffiths, vencedor da corrida, partilhou a mesma perplexidade: “Não sei se justificava uma bandeira vermelha. A pista estava bastante bloqueada, mas provavelmente quando voltassem a passar já dava para limpar.” O director de prova Marek Hanczewski justificou a decisão com a necessidade de inspecionar o muro na curva 9, mas nenhum carro chegou a tocar no mesmo, o que adensou ainda mais a polémica. Oliver Rowland, campeão em título, criticou ainda a demora no recomeço da corrida: “Na minha opinião, precisavam de um procedimento rápido de reinício nestas situações, como se vê no MotoGP. Aqui, ninguém sabe bem em que ordem estão quando regressam. É confuso e precisam de ter uma estrutura melhor para isso.”
O tema das penalizações voltou a dividir o pelotão, com 14 decisões durante a corrida. António Félix da Costa, que perdeu o pódio por alegadamente se ter movido em travagem e provocado contacto com Norman Nato (Nissan), mostrou-se incrédulo: “Não percebo isto e não há consistência nas penalizações. Torna difícil lutar por um campeonato.” Norman Nato, envolvido no incidente, até acabou por minimizar: “Não foi nada de especial, ele só tentou evitar o carro da frente e eu já ali estava.” Para complicar, Nyck de Vries viu uma penalização ser revogada após erro processual, acabando promovido ao pódio. Ao todo, o pódio inicial pouco teve a ver com a classificação final, com Felipe Drugovich também penalizado por contacto — uma situação que levou muitos a questionar a clareza dos critérios dos comissários.
A capacidade do circuito de Sanya para receber carros de nova geração (Gen4), previstos para 2027, foi também posta em causa. O traçado, já apertado com os actuais monolugares, revelou fragilidades graves, especialmente na curva 9 e na zona de partida e chegada. Com os Gen4 a serem mais largos e rápidos, as preocupações de segurança e fluidez da corrida aumentam. Não faltam vozes a pedir alterações profundas ou até a exclusão do circuito do calendário, sobretudo depois de Londres ter sido afastada por razões semelhantes.
O próximo desafio da Fórmula E será o E-Prix de Roma, onde se espera um ambiente igualmente competitivo mas com maior previsibilidade nos procedimentos. Dennis parte com vantagem reforçada, mas os incidentes de Sanya deixam o campeonato ao rubro e com vários protagonistas a exigirem maior transparência e consistência nas decisões. O que é certo é que, em Sanya, a bandeira vermelha e as penalizações vão continuar a dar que falar muito depois de os motores se calarem.
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