Nos bastidores da Fórmula 1, uma batalha silenciosa ameaça pôr em causa uma das mudanças regulamentares mais cruciais da próxima década. James Vowles, diretor da equipa Williams, revelou as tensões e “desentendimentos” que marcam a discussão em torno da alteração do equilíbrio de potência dos motores para 2027. Esta mudança, anunciada durante o GP de Miami, propunha alterar a repartição da potência entre o motor de combustão interna (ICE) e as baterias, passando do atual 50:50 para um novo formato 60:40, privilegiando o ICE.
O objetivo desta alteração é claro: eliminar estratégias como o “super-clipping” ou o “lift and coast”, que têm condicionado a energia disponível nos carros durante as corridas. No entanto, apesar de ter sido acordada em princípio, a proposta está agora em risco devido à oposição de alguns dos principais fabricantes de unidades de potência (PUMs). Para que a mudança avance, é necessária uma supermaioria no Power Unit Advisory Committee (PUAC), composto por Audi, Honda, Ferrari, Mercedes HPP, Red Bull Powertrains, além da FIA e da F1. Quatro dos cinco fabricantes, juntamente com a FIA e a F1, têm de apoiar a proposta – mas Audi e Ferrari já manifestaram reservas por motivos distintos.
Honda mantém-se aberta à decisão final, enquanto Mercedes HPP e Red Bull Powertrains mostram-se favoráveis à alteração. Williams, cliente da Mercedes HPP, está no epicentro destas negociações e Vowles deu um raro vislumbre do que se passa nos bastidores. “Fiquei mais impressionado por termos conseguido reunir 11 equipas sem que houvesse confrontos acérrimos”, afirmou o responsável da Williams quando questionado sobre o ambiente nas reuniões, incluindo a recente discussão no GP do Canadá. “Reconhecemos que ainda não estamos onde queremos com alguns regulamentos e ninguém abandonou a mesa das negociações. Parte da conversa é perceber o que pode ser adiado para 2028 e o que ainda é possível implementar em 2027.”
Vowles elogiou o espetáculo das corridas recentes, destacando a qualidade do GP de Miami e algumas provas em Xangai, mas sublinhou que a Fórmula 1 ainda não atingiu o seu potencial máximo, especialmente na qualificação e noutros aspetos técnicos. Segundo ele, o principal motivo das divergências prende-se com a capacidade desigual dos fabricantes em reagir rapidamente às alterações. “Estes são processos muito caros, e estamos a falar de encomendar componentes com 12 a 18 meses de antecedência, o que dificulta mudanças rápidas”, explicou.
Um dos pontos mais complexos está relacionado com as alterações ao chassis. Para conseguir o novo rácio 60:40, a solução mais eficaz seria aumentar o fluxo de combustível no motor de combustão, ampliando sua potência. Contudo, esta alteração exige tanques de combustível maiores, uma mudança significativa para os chassis atuais, concebidos para o equilíbrio 50:50. Vowles, no entanto, mostra-se confiante: “A FIA tem sido muito firme neste processo e já discutimos em detalhe o impacto destas mudanças. Se aumentarmos o fluxo de combustível, o tamanho do depósito terá de ser ajustado, mas encontrámos vários compromissos para minimizar o impacto.”
Além disso, existem ajustes necessários no sistema elétrico, mas Vowles assegura que todos os fabricantes de unidades de potência poderão fazer essas alterações sem necessidade de modificar o chassis. “Muitas equipas vão manter o chassis atual no próximo ano sem prejuízo para o desempenho,” concluiu.
Esta disputa revela mais do que um mero ajuste técnico: é uma luta de interesses com impacto direto no futuro da Fórmula 1, onde inovação, custos e estratégias de corrida se cruzam num cenário de alta tensão. O resultado deste embate poderá reconfigurar as regras do jogo para 2027 e além, definindo o rumo da competição e o equilíbrio entre potência e eficiência num campeonato cada vez mais tecnológico e exigente.




