Mercer-Cobra: o «Shelby Cobra italiano» feito de cobre e latão
O essencial
- O Mercer-Cobra foi construído pela Carrozzeria Sibona-Basano de Turim como exercício de design para mostrar as possibilidades do cobre e do latão.
- O design foi baseado numa proposta de Virgil Exner para a revista Esquire em 1963, inspirada no clássico Mercer Raceabout.
- O chassis era um AC Cobra modificado com motor V8 Ford de 4,7 litros, e a carroçaria utilizava extensivamente cobre e latão em componentes visíveis e mecânicos.
O Shelby Cobra é um dos grandes ícones dos desportivos americanos dos anos 60, mas houve uma versão «italiana» bem menos conhecida: o Mercer-Cobra Roadster, um dos protótipos mais singulares da época. Construído pela Carrozzeria Sibona-Basano, de Turim, foi concebido como exercício de design e como montra das possibilidades do cobre e do latão. Em 2011, a RM Sotheby’s vendeu-o em leilão, em Monterey, por 660 000 dólares.
A ideia de Virgil Exner
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A visão de Virgil Exner
Depois da Segunda Guerra Mundial, o design automóvel americano abandonou as formas tradicionais em favor de superfícies mais modernas e de proporções mais dinâmicas. Virgil Exner, que passou pela Studebaker e depois pela Chrysler, foi um dos nomes centrais dessa mudança.

Em 1963, a revista Esquire pediu-lhe que imaginasse como alguns clássicos poderiam ser reinterpretados com a tecnologia da época. Exner desenhou quatro propostas, inspiradas na Stutz, na Duesenberg, na Packard e na Mercer. A da Mercer, baseada no Raceabout, tinha um capot muito comprido, um habitáculo recuado e guarda-lamas separados da carroçaria, e foi a origem do futuro Mercer-Cobra.
Os desenhos chamaram a atenção de George Hartley, presidente da Copper Development Association, que decidiu transformar a ideia num carro funcional. O objectivo não era só mostrar um concept espectacular, mas demonstrar a versatilidade do cobre e das suas ligas em componentes da carroçaria e do habitáculo.

Chassis Cobra, carroçaria italiana
Chassis Cobra e carroçaria italiana
Para a execução, Exner recorreu à Sibona-Basano, por recomendação do designer Brooks Stevens. A empresa, fundada por Elio e Emilio Basano, ganhou experiência acrescida com a entrada de Pietro Sibona, antigo mestre de chaparia da Ghia. O projecto definitivo foi desenvolvido por Exner e pelo filho, a partir de um chassis AC Cobra novo, encomendado através da Shelby American, então distribuidora exclusiva da AC nos Estados Unidos. O quadro foi modificado e a distância entre eixos aumentou para 2,74 metros.
A mecânica era a do Cobra: um V8 Ford de 4,7 litros, com caixa manual de quatro velocidades, suspensão independente às quatro rodas com molas transversais e travões de disco nos quatro eixos.

Cobre e latão por todo o lado
Cobre e latão por toda a estrutura
O cobre estava por todo o carro. A grande grelha frontal, de estilo clássico, era em latão protegido por rede, e os faróis, montados em suportes orientáveis, podiam recolher para os lados do capot. No habitáculo, o painel de instrumentos e os painéis das portas usavam cobre, e os raios do volante eram de uma liga de cobre e crómio de alta resistência. As jantes de raios de 16 polegadas tinham revestimento em latão e algumas molduras eram de bronze ao silício. No motor, as tampas dos balanceiros, o filtro de ar e o tampão do óleo seguiam a mesma lógica, e alguns componentes dos travões foram feitos em ligas de cobre pela sua elevada capacidade de transferência térmica.
Da estreia aos leilões
O Mercer-Cobra ficou concluído no final de 1964, cerca de um ano depois do início do projecto, e foi apresentado como embaixador do cobre e do latão no sector automóvel. Viajou por vários países, passou por exposições e encontros técnicos e mereceu seis páginas na edição de Inverno de 1964 da revista Automobile Quarterly. Depois de passar por vários coleccionadores, chegou à RM Sotheby’s, onde foi vendido em 2011.

Ficha técnica
- Motor
- V8 Ford de 4,7 litros
- Transmissão
- Caixa manual de quatro velocidades
- Suspensão
- Independente às quatro rodas com molas transversais
- Travagem
- Discos nos quatro eixos
- Quadro
- AC Cobra modificado com distância entre eixos de 2,74 metros
- Rodas
- Jantes de raios de 16 polegadas com revestimento em latão
AutoGear · 800 artigos
Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).