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Itália quer recuperar a Ducati e prepara-se para usar o «Golden Power» contra a Volkswagen

Publicado a 28 de Setembro de 2026, 12h00  ·  Atualizado a 28 de Setembro de 2026, 15h03  ·  6 min de leitura

O essencial

  • O Governo italiano quer ter palavra sobre o destino da Ducati e considera usar o «Golden Power» contra a Volkswagen
  • A Ducati não está oficialmente à venda e continua com resultados positivos: 50 895 motos entregues em 2025 e volume de 925 milhões de euros
  • O «Golden Power» é um mecanismo jurídico que permite ao Estado italiano impor condições em operações estratégicas ou travá-las

A Ducati não está oficialmente à venda, mas o futuro da histórica marca italiana já ganhou uma dimensão política. Enquanto a Volkswagen atravessa um período de profunda reestruturação e crescem as especulações sobre uma eventual alienação de alguns dos seus ativos, o Governo italiano deixa claro que pretende ter uma palavra a dizer sobre o destino do fabricante de Borgo Panigale.

Roma admite mesmo recorrer ao chamado «Golden Power», um mecanismo jurídico que permite ao Estado italiano impor condições a determinadas operações consideradas estratégicas ou, em determinadas circunstâncias, travá-las.

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A questão que começa a ganhar força em Itália é, por isso, inevitável: poderá a Ducati voltar a ser italiana?

Roma quer participar nas decisões sobre o futuro da Ducati

Roma quer participar no futuro da Ducati

O sinal político dado pelo Governo italiano foi particularmente forte a 21 de setembro, quando o ministro das Empresas e do «Made in Italy», Adolfo Urso, visitou as instalações da Ducati, em Borgo Panigale. Acompanhavam-no, entre outros, Emanuele Orsini, presidente da Confindustria, e Michele de Pascale, presidente da região da Emília-Romanha.

A presença conjunta do Governo, dos empresários e das autoridades regionais não foi casual. Caso a Volkswagen decida efetivamente desfazer-se da Ducati, Roma pretende participar no debate sobre o futuro da marca e garantir que os interesses industriais italianos são considerados.

Mais do que preservar apenas uma fábrica, estão em causa empregos, investimento tecnológico e uma cadeia industrial profundamente ligada à região da Emília-Romanha.

Adolfo Urso foi ainda mais longe ao admitir publicamente a possibilidade de a Ducati regressar a um controlo italiano. Ao mesmo tempo, o Governo procura perceber quais são realmente as intenções da Volkswagen e da Audi relativamente ao fabricante de motos.

A Ducati não está à venda — pelo menos por enquanto

A Ducati não está à venda neste momento

É importante, contudo, separar as declarações políticas da realidade empresarial. A Ducati continua a pertencer ao grupo Volkswagen, através da Audi, e não existe, neste momento, uma venda oficialmente anunciada.

A marca mantém a sua atividade normal e continua a apresentar resultados positivos. Em 2025, entregou 50 895 motociclos e alcançou um volume de negócios de 925 milhões de euros. Apesar de os números representarem uma descida face ao ano anterior, a empresa continua a apresentar uma margem positiva, superior a 5,6%.

O próprio CEO da Ducati, Claudio Domenicali, tem defendido que a empresa consegue gerar internamente os recursos necessários para financiar os seus investimentos em novos produtos, instalações e sistemas informáticos.

Esta realidade é importante para compreender o que está realmente em causa. As especulações sobre o futuro da Ducati não resultam de uma situação financeira crítica da fabricante italiana, mas sobretudo das dificuldades que atravessa a sua empresa-mãe.

A Volkswagen encontra-se envolvida numa profunda reestruturação das suas operações na Alemanha, num contexto em que o grupo procura reduzir custos e reorganizar os seus ativos. É essa transformação que tem alimentado as notícias e especulações sobre possíveis alienações.

Para a Ducati, uma eventual mudança de proprietário representaria uma nova alteração profunda na sua história recente. A marca passou para o universo da Audi em 2012, depois de ter sido adquirida pelo grupo alemão.

O que é o «Golden Power»?

O que é o «Golden Power» e como funciona

É neste contexto que surge o instrumento jurídico que pode colocar o Governo italiano no centro de uma eventual operação: o «Golden Power».

Criado em Itália através do decreto-lei n.º 21, de 15 de março de 2012, este mecanismo atribui ao Estado poderes especiais sobre determinadas operações que envolvam empresas ou ativos considerados estratégicos para os interesses nacionais.

O regime esteve inicialmente muito associado a setores como a defesa, energia, telecomunicações e transportes, mas o seu âmbito foi posteriormente alargado a outras áreas consideradas sensíveis.

Na prática, o «Golden Power» não significa necessariamente que uma operação possa ser simplesmente proibida. Dependendo das circunstâncias e do enquadramento jurídico, o Estado pode impor determinadas condições, estabelecer requisitos ou condicionar uma transação.

O precedente da Pirelli é particularmente relevante. Nesse caso, o Governo italiano utilizou os seus poderes para proteger determinados interesses estratégicos e influenciar a governação da empresa perante a presença de capital chinês.

No caso da Ducati, Adolfo Urso mencionou expressamente o «Golden Power» como uma das ferramentas que poderão ser consideradas caso a Volkswagen avance com uma venda.

Isso não significa, porém, que o mecanismo vá ser automaticamente acionado ou que permita ao Governo italiano escolher livremente um eventual comprador. Até ao momento, não existe uma venda confirmada da Ducati nem uma decisão definitiva sobre uma mudança de proprietário.

Mais do que uma marca de motos

A importância da Ducati para Itália vai muito além do valor comercial da marca. A empresa continua a investir na sua capacidade industrial e tecnológica. O programa «Ducati Raise the Bar», por exemplo, representa um investimento de 121 milhões de euros, dos quais mais de 99 milhões estão destinados à investigação industrial e ao desenvolvimento experimental. O projeto conta ainda com uma contribuição pública de 33 milhões de euros.

É precisamente este tipo de investimento que ajuda a explicar a preocupação das autoridades italianas.

A Ducati representa uma parte importante do tecido industrial da Emília-Romanha, uma região onde estão concentradas empresas, fornecedores e competências altamente especializadas no setor automóvel e das duas rodas.

Por isso, a eventual saída da Ducati do grupo Volkswagen não é encarada em Itália apenas como uma operação financeira. Estão também em causa a continuidade dos investimentos, o emprego e a manutenção de competências tecnológicas desenvolvidas ao longo de décadas.

Durante a visita a Borgo Panigale, essa posição ficou clara. O presidente da Confindustria, Emanuele Orsini, defendeu a necessidade de preservar a atividade industrial e o emprego, enquanto Michele de Pascale pediu que Itália seja envolvida nas decisões relacionadas com o futuro da marca.

A decisão está agora nas mãos da Volkswagen

A próxima etapa depende essencialmente das decisões tomadas na Alemanha. O encontro previsto para 25 de setembro entre Adolfo Urso e responsáveis da Volkswagen e da Audi deveria permitir ao Governo italiano obter uma visão mais clara sobre os planos do grupo para a Ducati.

Por enquanto, as informações continuam a apontar para um cenário de incerteza. A Ducati não foi oficialmente colocada à venda e não existe confirmação de que a Volkswagen tenha decidido alienar a marca.

Ainda assim, a posição de Roma é inequívoca: se o grupo alemão avançar para uma venda, o Governo italiano pretende estar sentado à mesa e utilizar todos os instrumentos legais ao seu alcance para proteger aquilo que considera serem interesses estratégicos nacionais.

A Ducati continua, portanto, alemã do ponto de vista acionista. Mas, caso o futuro da marca passe efetivamente por uma mudança de proprietário, a Itália já deixou claro que não pretende assistir ao processo de braços cruzados.

Ricardo Carvalho

AutoGear  ·  500 artigos

Jornalista de automóveis, especializado em testes. É diretor da revista Comerciais & Pesados e o membro português do júri do International Truck of the Year. Editor dos sites da Revista Carros e Motores e da Revista Motos, e colaborador permanente do Jornal das Oficinas e da Revista dos Pneus, publicações de referência no pós-venda automóvel. Formado pela Universidade Autónoma de Lisboa. No AutoGear escreve sobre mercado, novidades e mobilidade elétrica.

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