Terça-feira, 3 de Novembro de 2026 F1 em directo
AutoGear AutoGear
Notícias

Volkswagen envia carros chineses para a Turquia para fugir à crise

Publicado a 3 de Novembro de 2026, 17h00  ·  Atualizado a 3 de Novembro de 2026, 18h21  ·  4 min de leitura

O essencial

  • Volkswagen estuda envio de veículos produzidos na China em kits de peças para a Turquia, através de parceria com Doğuş Otomotiv.
  • Mercado turco prefere motores convencionais: 80% dos automóveis vendidos têm motorizações convencionais ou híbridas, 20% são elétricos.
  • Volkswagen registou queda de 30% nas vendas na China nos primeiros nove meses de 2026, com prejuízo de 113 milhões de euros.

Estratégia para aproveitar capacidade industrial

A Volkswagen está a adaptar a sua estratégia industrial à crise que atravessa na China. Depois de anos a dominar aquele mercado, o grupo alemão enfrenta uma quebra acentuada das vendas, pressionado pelo crescimento dos fabricantes locais e pela mudança das preferências dos consumidores para automóveis elétricos e híbridos plug-in. O resultado é um problema adicional: fábricas com capacidade disponível e modelos a combustão que deixaram de encontrar procura suficiente.

Para tentar dar resposta a esta situação, a marca está a estudar o envio de veículos produzidos na China em kits de peças para a Turquia. A montagem seria realizada naquele país, através de uma parceria com a Doğuş Otomotiv, com quem a Volkswagen assinou uma carta de intenções. Depois de montados, os automóveis seriam comercializados no mercado turco.

"À procura do próximo carro? Espreita as oportunidades disponíveis na Carmine.pt"

A operação permitiria aproveitar parte da capacidade industrial das fábricas chinesas da joint venture Volkswagen-FAW, em vez de deixar instalações e linhas de produção subaproveitadas. Ao mesmo tempo, abriria uma oportunidade para vender modelos que continuam a ter potencial comercial noutros mercados, mas que estão a perder espaço na China.

Turquia continua a preferir motores convencionais

Turquia continua a preferir motores convencionais

A escolha da Turquia não parece ser acidental. Ao contrário do que acontece na China, onde os automóveis elétricos e híbridos recarregáveis conquistaram uma posição cada vez mais importante, o mercado turco continua a ter uma forte preferência por motorizações convencionais.

Segundo os dados apresentados, os modelos com motores de combustão e os híbridos representam cerca de 80% do mercado turco, enquanto os automóveis totalmente elétricos correspondem a aproximadamente 20%. Este cenário poderá permitir à Volkswagen prolongar a vida comercial de alguns dos seus modelos a gasolina, aproveitando uma procura que continua a existir naquele país.

A marca ainda não revelou que automóveis poderão integrar o projeto. No entanto, dois nomes surgem como possibilidades: o Magotan e o Sagitar, ambos desenvolvidos para o mercado chinês.

O Magotan é uma berlina de três volumes com dimensões próximas das do Passat, enquanto o Sagitar ocupa um posicionamento semelhante ao do Jetta. São modelos que poderão encaixar nas preferências de parte dos consumidores turcos, onde as berlinas tradicionais continuam a ter presença comercial.

Para já, contudo, a inclusão destes dois automóveis não está confirmada. A Volkswagen mantém-se discreta quanto à lista de modelos, aos volumes de produção e ao calendário previsto para o arranque da operação.

Queda de 30% nas vendas na China

Queda de 30% nas vendas na China

A dimensão do problema fica evidente nos números mais recentes. Nos primeiros nove meses de 2026, a Volkswagen vendeu 1,38 milhões de automóveis na China, menos 30% do que no período homólogo. A quebra está associada, em particular, à perda de competitividade dos modelos tradicionais perante a rápida evolução das marcas chinesas, sobretudo nos segmentos eletrificados.

A situação contrasta com os resultados alcançados no passado. Em 2016, a atividade da Volkswagen na China gerou cerca de cinco mil milhões de euros de lucros. Nos primeiros nove meses de 2026, porém, o fabricante registou um prejuízo de 113 milhões de euros naquele mercado.

A mudança é particularmente significativa para um grupo que construiu uma parte importante da sua presença internacional na China. Durante décadas, a estratégia passou por desenvolver e produzir automóveis adaptados aos gostos dos consumidores locais, numa fórmula que permitiu à Volkswagen alcançar uma posição dominante. Agora, essa vantagem está a desaparecer perante concorrentes nacionais que avançam rapidamente na eletrificação e na tecnologia a bordo.

A exportação de kits para a Turquia surge, assim, como uma forma de rentabilizar investimentos e capacidade industrial que, de outra maneira, poderiam ficar parcialmente parados.

Uma solução para a Volkswagen, mas não para a crise chinesa

A montagem na Turquia poderá representar uma oportunidade para as duas empresas envolvidas. A Volkswagen ganha um canal adicional para escoar modelos produzidos na China, enquanto a Doğuş Otomotiv poderá reforçar a sua atividade industrial e comercial com automóveis de uma marca que mantém uma presença consolidada no mercado turco.

Ainda assim, dificilmente esta operação será suficiente para compensar a dimensão das perdas na China. O mercado turco tem uma escala muito inferior à chinesa e, mesmo que a iniciativa seja bem-sucedida, os volumes de vendas não deverão resolver os problemas estruturais da Volkswagen naquele país.

O projeto revela, sobretudo, a pressão a que o fabricante está sujeito para encontrar novas formas de rentabilizar a sua estrutura industrial. Depois de ter abandonado, em 2020, um anterior plano de produção na Turquia devido à incerteza provocada pela pandemia, a marca alemã volta a olhar para aquele país como uma alternativa.

Desta vez, porém, a motivação é diferente: não se trata apenas de expandir a produção, mas de encontrar uma saída para automóveis que já não conseguem competir com a mesma eficácia no mercado onde foram desenvolvidos. A crise chinesa está, assim, a obrigar a Volkswagen a procurar compradores para os seus modelos a combustão muito para além das fronteiras da China.

Ricardo Carvalho

AutoGear  ·  764 artigos

Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).

Leia também

Mais em Notícias →

O essencial do
automóvel, cada manhã.

Uma newsletter diária com o que interessa mesmo: ensaios, mercado nacional e o desporto motorizado, sem ruído.