As novas regras da Fórmula 1 para 2026 trouxeram um desafio inesperado e complexo: a gestão detalhada da energia elétrica disponível durante as corridas, obrigando equipas e pilotos a uma maratona de reuniões técnicas para decifrar o enigma do “volta ótima”. Oliver Bearman, jovem talento da F1, não hesita em destacar o impacto desta nova realidade e como ela tem transformado o trabalho dos pilotos, que agora enfrentam “muito mais números e informação” do que antes, numa luta constante para equilibrar desempenho e eficiência.
Com um limite de energia armazenada fixado em 4 megajoules, mas com autorização para usar entre 6 e 9 MJ por volta, dependendo do circuito, as equipas têm de gerir a energia de forma cirúrgica — ora a gastar, ora a recuperar. Antes de cada Grande Prémio, a FIA divulga um documento detalhado, que inclui não só os limites de energia, mas também zonas onde a recolha de energia é restringida para evitar grandes diferenças de velocidade entre os carros, os chamados “low-power zones”. A complexidade está em encontrar o equilíbrio perfeito entre minimizar perdas de velocidade durante a recuperação de energia e potenciar o impulso elétrico onde este faz mais diferença, uma receita que varia conforme as características de cada pista.
“É muita informação para absorver,” admitiu Bearman à imprensa especializada. “Com distâncias da volta e tantas variáveis, torna-se confuso. Por sorte, temos uma equipa dedicada a traduzir estes dados para nós, os pilotos, para que possamos focar na pista. Agora temos uma reunião específica de 30 a 45 minutos sobre a unidade motriz em cada fim de semana, algo impensável no ano passado, quando tudo era mais simples. Estamos na quinta ronda e já vamos ganhando ritmo, passo a passo.”
Face a esta complexidade, a FIA interveio antes do GP de Miami com ajustes nas regras, nomeadamente a redução do limite de energia em circuitos onde as condições dificultam a recuperação de energia, como Montreal. O objetivo foi responder às queixas dos pilotos sobre a necessidade excessiva de levantar o pé e “coastear” nas curvas rápidas para gerir a energia, comprometendo o espetáculo e a agressividade da condução.
Este ajuste diminui também a necessidade do controverso “super clipping” — quando o motor elétrico funciona em torque reverso a acelerador a fundo para carregar a bateria, uma manobra que parecia inevitável em Montreal, especialmente antes do icónico “Wall of Champions”. Embora esta solução reduza a velocidade máxima nas retas, suaviza a queda abrupta de velocidade quando a energia termina, mantendo a emoção sem penalizar demasiado o ritmo global.
“Diminuir a energia recuperada significa reduzir também a energia que podemos usar,” explicou Hoagy Nidd, diretor de engenharia da Haas, numa conferência de imprensa durante a pausa de Abril. “Mas isso permite que consigamos atingir as nossas metas energéticas em condições de condução mais normais, como travagem ou saídas de curva a meio gás, sem precisar alterar demasiado o estilo de condução para guardar energia. Já não é necessário levantar o pé ou usar super clipping constantemente. É um problema criado para resolver outro, não é ideal, mas é o que temos com o hardware atual em toda a grelha.”
Esta nova era da Fórmula 1, dominada pela gestão energética, promete revolucionar não só a estratégia das corridas, mas também a forma como os pilotos interagem com a tecnologia. O desafio está lançado: adaptar-se a números, reuniões e cálculos para continuar a acelerar no limite, sem esgotar a eletricidade que alimenta o futuro da competição automóvel.




