No universo das corridas, poucas tradições são tão icónicas e enraizadas como a do vencedor das 500 Milhas de Indianápolis a beber leite na linha de chegada. Mas porque é que, num mundo onde o champanhe reina nas celebrações, o Indy 500 mantém esta singular e antiga prática? E quem foi o piloto de Fórmula 1 que quebrou esta sagrada tradição, provocando polémica entre os fãs do Brickyard?
A origem desta curiosa tradição remonta a 1936, quando Louis Meyer conquistou a sua terceira vitória na lendária corrida. Após cruzar a meta, Meyer bebeu um copo de leite, mais concretamente buttermilk (leitelho), um hábito que a sua mãe lhe recomendava desde criança para fortalecer a saúde. Já em 1933, depois da sua segunda vitória, Meyer poderá ter repetido o gesto, embora essa cena não tenha sido registada em vídeo. Foi precisamente a filmagem de 1936 que imortalizou este momento e lançou as bases para o costume que hoje faz parte do ADN do Indy 500.
A tradição ganhou força quando um executivo de marketing da Indiana Dairy Farmers Association viu o filme e decidiu garantir a presença do leite para o vencedor todos os anos entre 1938 e 1941. A corrida foi suspensa devido à Segunda Guerra Mundial, regressando em 1946. Entre 1947 e 1955, a tradição deu uma pausa, e os vencedores bebiam simplesmente água. Contudo, em 1956, o leite voltou com força total, muito antes de Dan Gurney popularizar o espirro de champanhe em Le Mans e na Fórmula 1.
Desde então, todos os campeões do Indy 500 têm brindado a vitória com um copo de leite, numa celebração que simboliza saúde, tradição e a ligação ao estado de Indiana, grande produtor de leite nos Estados Unidos. A única exceção a esta regra aconteceu em 1993, quando o bicampeão mundial de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi decidiu substituir o leite por sumo de laranja. O brasileiro, que venceu pela segunda vez no Brickyard, optou por promover os seus pomares de citrinos no Brasil. Esta decisão, quebrou uma tradição de décadas e ainda hoje é alvo de críticas por parte de muitos entusiastas do Indy 500, que consideram a escolha de Fittipaldi uma afronta ao ritual sagrado.
Atualmente, os pilotos têm à sua disposição várias opções de leite: integral, 2% de gordura ou magro. Na mais recente vitória de 2025, o espanhol Alex Palou escolheu o leite integral para celebrar o seu triunfo, mantendo viva a herança iniciada por Meyer há quase um século.
Esta tradição é mais do que um gesto simbólico. É um elo que liga gerações de pilotos, fãs e a própria cultura automobilística norte-americana, diferenciando o Indy 500 de outras corridas icónicas pelo mundo. E enquanto o champanhe continua a ser o rei das celebrações em muitas pistas, em Indianápolis o leite mantém o trono — uma prova de que algumas tradições têm sabor e persistência incomparáveis.




