Noruega está perto de abandonar os carros a combustão: 95,9% dos novos automóveis são elétricos
O essencial
- 95,9% dos automóveis de passageiros matriculados em 2025 na Noruega eram totalmente elétricos
- Em janeiro de 2026 foram vendidos apenas sete automóveis novos a gasolina no país
- A Noruega combinou isenções fiscais para elétricos com impostos mais altos para modelos poluentes
A Noruega está a demonstrar como a mobilidade elétrica pode deixar de ser uma alternativa para passar a ser a escolha dominante na compra de um automóvel novo. Segundo dados da associação norueguesa da indústria automóvel OFV, 95,9% dos automóveis de passageiros matriculados pela primeira vez em 2025 eram totalmente elétricos.
A tendência manteve-se no início de 2026. De acordo com o jornal The Guardian, em janeiro foram vendidos apenas sete automóveis novos a gasolina no país, um número que ilustra a dimensão da transformação do mercado automóvel norueguês.
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Este resultado não se explica apenas pela riqueza do país, pela preocupação ambiental ou pela abertura dos consumidores à tecnologia. Para Christina Bu, secretária-geral da Associação Norueguesa de Veículos Elétricos, a política fiscal foi determinante. Em declarações citadas pela revista TIME e pelo The Guardian, a responsável destacou o papel da regulamentação, dos impostos e dos incentivos na mudança dos hábitos de compra.
Impostos tornaram os elétricos mais competitivos
Impostos tornaram os elétricos mais competitivos
Ao contrário de uma estratégia baseada exclusivamente na proibição dos motores de combustão, a Noruega optou por alterar progressivamente as condições económicas do mercado.
Tradicionalmente, os automóveis novos estão sujeitos a uma carga fiscal significativa, incluindo impostos de aquisição e IVA. Durante muitos anos, os veículos elétricos beneficiaram de isenções fiscais que os tornaram mais competitivos perante os modelos a gasolina e gasóleo.
Em paralelo, a tributação dos automóveis com motor de combustão passou a refletir mais diretamente as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e de óxidos de azoto (NOx), aumentando o custo de aquisição de vários modelos convencionais.
A estratégia assentou, assim, numa combinação de benefícios para os veículos sem emissões de escape e de encargos fiscais mais elevados para os modelos poluentes. Em vez de depender sobretudo de subsídios diretos à compra, o país procurou tornar o automóvel elétrico uma opção financeiramente mais vantajosa.
Ainda assim, os benefícios fiscais têm sido ajustados ao longo do tempo, pelo que as condições de aquisição variam consoante o período e o tipo de veículo.
Carregar e utilizar o carro também ficou mais fácil
Carregar e utilizar o carro também ficou mais fácil
A política norueguesa não se limitou ao preço de compra. O país introduziu também vantagens destinadas a tornar a utilização quotidiana dos automóveis elétricos mais conveniente.
Entre as medidas adotadas ao longo dos anos encontram-se descontos em portagens e tarifas de ferry, acesso condicionado às faixas reservadas aos transportes públicos e benefícios de estacionamento definidos pelas autoridades locais.
Outro passo importante foi a criação, em 2017, de regras destinadas a garantir o acesso ao carregamento em edifícios de apartamentos, procurando responder a uma das dificuldades frequentemente apontadas por quem não dispõe de garagem privada.
Estas medidas ajudaram a reduzir alguns dos principais obstáculos à adoção de veículos elétricos: o preço inicial, o acesso ao carregamento, a autonomia e os custos de utilização.
A combinação entre incentivos económicos e condições práticas de utilização contribuiu para que a escolha de um automóvel elétrico deixasse de estar limitada aos consumidores mais entusiastas da tecnologia.
Até no norte da Noruega os elétricos estão a ganhar terreno
A transição não se limita às regiões urbanas mais densamente povoadas. Em 2025, o The Washington Post publicou uma reportagem sobre Finnmark, uma região ártica da Noruega caracterizada por longas distâncias, baixas temperaturas e condições de condução exigentes.
Apesar destes desafios, os automóveis elétricos conquistaram uma presença significativa entre os veículos novos vendidos na região. O caso demonstra que a utilização de um elétrico em condições de frio intenso e em zonas pouco povoadas é possível, embora continue a exigir planeamento e uma infraestrutura de carregamento adequada.
Os custos de utilização também ajudam a explicar a adesão. Na reportagem, um condutor resumiu a sua experiência de forma direta: «É muito barato conduzir».
O frio extremo pode reduzir temporariamente a autonomia das baterias e aumentar o consumo energético, mas a experiência norueguesa mostra que estes fatores não impediram a expansão da mobilidade elétrica.
O que pode aprender o resto da Europa?
O que pode aprender o resto da Europa?
O exemplo norueguês evidencia que a transição para o automóvel elétrico depende de um conjunto de fatores, e não apenas da disponibilidade de novos modelos ou da vontade dos consumidores.
A fiscalidade, a rede de carregamento, os custos de utilização e a previsibilidade das políticas públicas desempenham um papel importante na decisão de compra. Quando estes elementos funcionam em conjunto, a mobilidade elétrica pode tornar-se uma escolha habitual, em vez de uma opção de nicho.
Contudo, o modelo norueguês também beneficia de condições específicas, incluindo um elevado poder de compra e um contexto energético e fiscal próprio. Por isso, replicar os mesmos resultados noutros países poderá exigir medidas adaptadas à realidade de cada mercado.
Ainda assim, a mensagem é clara: a Noruega não esperou que todos os obstáculos à mobilidade elétrica desaparecessem. Foi alterando as condições de compra e utilização dos automóveis até que os modelos elétricos passaram a dominar as matrículas de veículos novos.
Com 95,9% dos novos automóveis de passageiros matriculados em 2025 a serem totalmente elétricos, o país está a mostrar como uma transformação profunda do mercado automóvel pode acontecer quando a política fiscal, as infraestruturas e as escolhas dos consumidores evoluem na mesma direção.
AutoGear · 740 artigos
Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).