Este país pondera limite de 80 km/h nas autoestradas para poupar combustível
O essencial
- A Suíça estuda reduzir o limite de velocidade nas autoestradas de 120 para 80 km/h caso o abastecimento de combustível se agrave.
- Um automóvel a gasóleo que consome 6,2 l/100 km a 120 km/h pode reduzir para 3,6 l/100 km a 80 km/h, uma redução de aproximadamente 42%.
- As dificuldades no abastecimento resultam de fortes chuvas no sul de França, baixo nível do Reno e perturbações nas rotas internacionais.
- A 23 de outubro, a Suíça disponibilizou 45 milhões de litros de gasóleo das suas reservas estratégicas.
Imagine circular numa autoestrada a 80 km/h, mesmo quando as condições da estrada permitem viajar a uma velocidade bastante superior. Na Suíça, este cenário poderá tornar-se realidade se a situação do abastecimento de combustíveis se agravar. As autoridades estão a estudar a possibilidade de reduzir temporariamente o limite máximo nas autoestradas de 120 para 80 km/h, numa tentativa de diminuir o consumo de petróleo e aliviar a pressão sobre as reservas nacionais.
A proposta está a ser analisada pelo Gabinete Federal para o Abastecimento Económico do País (OFAE), que terá apresentado a medida a vários serviços da administração suíça no âmbito de uma consulta interna. O objetivo passa por preparar uma resposta de emergência que possa ser ativada caso as dificuldades de abastecimento se tornem mais graves.
Importa sublinhar que a redução para 80 km/h ainda não foi aprovada. O Conselho Federal suíço não tomou qualquer decisão, e as condições em que uma eventual restrição seria aplicada continuam por definir.
Problemas no transporte de combustível motivam alerta
Problemas no transporte de combustível motivam alerta
Ao contrário do que se poderia pensar, a proposta não está diretamente relacionada com uma campanha de segurança rodoviária ou com o aumento dos preços nos postos de abastecimento. A preocupação central é garantir que o país dispõe de combustível suficiente perante as dificuldades que afetam a distribuição de produtos petrolíferos.
As fortes chuvas registadas no sul de França terão perturbado as entregas de gasóleo por oleoduto, enquanto o baixo nível do Reno está a dificultar o transporte fluvial. A estas limitações juntam-se perturbações ferroviárias e tensões nas rotas internacionais de abastecimento.
A situação levou as autoridades suíças a recorrer às reservas estratégicas. A 23 de outubro, foi autorizada a disponibilização de 45 milhões de litros de gasóleo, correspondentes a pouco menos de 4% das reservas obrigatórias disponíveis.
O país já tinha enfrentado dificuldades semelhantes em setembro, quando a paragem temporária da refinaria de Cressier, a única em território suíço, obrigou também a recorrer às reservas de combustível.
Apesar de o abastecimento continuar garantido, as autoridades consideram que a situação exige preparação para cenários mais difíceis. Em vez de depender exclusivamente da libertação de mais combustível das reservas, limitar a velocidade nas autoestradas permitiria atuar diretamente sobre a procura.
Conduzir a 80 km/h pode reduzir o consumo em mais de 40%
Conduzir a 80 km/h reduz o consumo em 42%
A principal justificação para a proposta está na relação entre velocidade e consumo de combustível. Quanto mais depressa circula um automóvel, maior é a resistência do ar que o motor tem de vencer, exigindo mais energia para manter a velocidade.
Segundo Christian Bach, especialista em sistemas de propulsão do instituto suíço de investigação Empa, citado pelo meio de comunicação Nau.ch, um automóvel moderno a gasóleo que consuma 6,2 litros aos 100 quilómetros a uma velocidade constante de 120 km/h poderá reduzir esse valor para 3,6 l/100 km se circular a 80 km/h.
A diferença representa uma redução de aproximadamente 42% no consumo de combustível neste exemplo.
Estes valores devem, contudo, ser interpretados com cautela. Correspondem a condições de circulação estabilizadas e a um exemplo específico, não sendo possível garantir uma poupança idêntica para todos os automóveis ou em todas as situações de trânsito. A presença de acelerações, travagens e congestionamentos pode alterar significativamente os resultados.
Ainda assim, o exemplo ilustra o potencial de uma redução de velocidade numa situação de emergência energética, sobretudo se a medida for aplicada de forma abrangente e durante um período em que a poupança de combustível seja prioritária.
Viagens mais demoradas e dúvidas sobre a aplicação
Viagens mais demoradas e dúvidas sobre a aplicação
A redução do consumo teria uma consequência inevitável: os automobilistas demorariam mais tempo a chegar ao destino. Num percurso percorrido continuamente à velocidade máxima, passar de 120 para 80 km/h significa aumentar em 50% o tempo necessário para cobrir a mesma distância. Na prática, a diferença dependeria também do trânsito, das condições da estrada e das velocidades efetivamente praticadas.
A proposta já está a suscitar reservas. Simone Gianini, presidente do Automobile Club da Suíça (ACS), considera que, neste momento, não estão reunidas as condições necessárias para justificar a aplicação da medida. Ainda assim, a organização não se oporia necessariamente a uma redução temporária caso se verificasse uma escassez grave de combustível e a eficácia da restrição estivesse demonstrada.
Outra questão por resolver é a aplicação da medida aos diferentes tipos de veículos. Os automóveis elétricos não consomem gasolina ou gasóleo durante a circulação, pelo que uma restrição concebida para reduzir o consumo de combustíveis fósseis levanta dúvidas sobre a eventual inclusão destes modelos.
Isentar os veículos elétricos poderia, no entanto, criar uma diferença significativa de velocidade entre automóveis a circular na mesma autoestrada, com possíveis implicações para a segurança e para a fluidez do trânsito. A forma como as autoridades resolveriam esta questão ainda não é conhecida.
A Suíça já recorreu a limites de velocidade durante a crise petrolífera
A Suíça já recorreu a limites durante a crise de 1973
A ideia de reduzir a velocidade para poupar energia não é inédita no país. Durante a crise petrolífera de 1973, a Suíça limitou a velocidade nas autoestradas a 100 km/h e chegou a impor domingos sem automóveis, procurando diminuir o consumo de petróleo.
Mais de cinco décadas depois, as autoridades voltam a considerar medidas que interferem diretamente com os hábitos de condução, desta vez perante dificuldades no abastecimento e no transporte de combustíveis.
Para já, os automobilistas suíços continuam sujeitos ao limite habitual de 120 km/h nas autoestradas, salvo quando existem outras restrições devidamente assinaladas. A passagem para 80 km/h permanece apenas uma hipótese em estudo, que dependerá da evolução da situação energética e de uma eventual decisão do Governo.
Se vier a ser aplicada, será uma medida excecional destinada a gerir uma crise de abastecimento, e não uma alteração permanente dos limites de velocidade. O desafio será encontrar um equilíbrio entre a poupança de combustível, a mobilidade dos cidadãos e a segurança rodoviária.
AutoGear · 729 artigos
Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).