Carros a gasolina perdem a liderança mundial pela primeira vez em 100 anos
O essencial
- Os automóveis exclusivamente a gasolina representaram apenas 49% das vendas mundiais no primeiro semestre de 2026, perdendo a maioria pela primeira vez em cerca de um século.
- Em 2021, os automóveis exclusivamente a gasolina representavam cerca de 73% do mercado mundial, caindo 10% face ao primeiro semestre de 2025.
- Os automóveis 100% elétricos atingiram 6,87 milhões de unidades no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 12%. Os híbridos registaram 7,27 milhões, com aumento de 10%.
- Na Europa, as vendas de automóveis totalmente elétricos cresceram 32% para 1,81 milhões de unidades. Na China recuaram 3% para 3,44 milhões.
Os automóveis exclusivamente a gasolina perderam a maioria nas vendas mundiais de carros novos. Os híbridos e os elétricos estão a ganhar terreno, numa transformação que está a mudar o rumo da indústria automóvel.
Durante anos, o domínio dos motores a gasolina pareceu praticamente inabalável. Apesar do crescimento dos veículos elétricos, muitos acreditavam que a transição para a mobilidade elétrica seria mais lenta do que o previsto e que os motores de combustão continuariam a dominar o mercado durante muito tempo.
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No entanto, os dados mais recentes apontam para uma mudança significativa. Segundo os números citados pela publicação Nikkei Asia, com base em dados da Mobility Global, os automóveis exclusivamente a gasolina representaram apenas 49% das vendas mundiais no primeiro semestre de 2026. É a primeira vez em cerca de um século que esta tecnologia perde a maioria absoluta no mercado automóvel global.
A gasolina perde terreno a um ritmo acelerado
A gasolina perde terreno a ritmo acelerado
A dimensão da mudança torna-se ainda mais evidente quando comparada com os números de há poucos anos. Em 2021, os automóveis exclusivamente a gasolina representavam cerca de 73% do mercado mundial. No primeiro semestre deste ano, as vendas caíram 10% face ao mesmo período de 2025, para aproximadamente 20,25 milhões de unidades.
Esta evolução mostra que a transformação do setor não se limita a oscilações pontuais nas vendas. A crescente oferta de alternativas eletrificadas está a alterar as escolhas dos consumidores e a reduzir progressivamente o peso dos motores de combustão tradicionais.
Embora a gasolina continue a ter uma presença significativa, sobretudo em mercados onde os veículos elétricos ainda enfrentam obstáculos relacionados com o preço e a infraestrutura de carregamento, a sua posição já não é tão dominante como era há poucos anos.
Os híbridos e os elétricos aproveitam a mudança
Híbridos e elétricos aproveitam a transformação
A perda de quota dos automóveis a gasolina está a beneficiar outras tecnologias, com destaque para os híbridos e os veículos totalmente elétricos.
De acordo com os dados apresentados, as vendas mundiais de automóveis 100% elétricos atingiram 6,87 milhões de unidades no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 12% em termos homólogos. Os híbridos também registaram uma evolução positiva, com um aumento de 10%, para 7,27 milhões de unidades.
Em conjunto, estas duas categorias demonstram que a eletrificação está a ganhar importância no mercado automóvel, embora a um ritmo diferente consoante a região.
A evolução regional ajuda a perceber melhor esta tendência:
Europa: as vendas de automóveis totalmente elétricos cresceram 32%, para 1,81 milhões de unidades.
Sudeste Asiático: o crescimento chegou aos 81%, aproximando-se das 350 mil unidades.
Oceânia: as vendas aumentaram 110%, para cerca de 110 mil unidades.
China: apesar de uma quebra de 3%, para 3,44 milhões de unidades, o país continua a ser o maior mercado mundial de automóveis elétricos.
América do Norte: as vendas recuaram 15%, num contexto marcado pela redução dos incentivos e pela crescente aposta dos fabricantes em modelos híbridos.
Os números mostram que a transição não está a acontecer de forma uniforme. Enquanto algumas regiões registam crescimentos expressivos, outras enfrentam dificuldades relacionadas com os custos, os incentivos públicos e as preferências dos consumidores.
Ainda assim, a tendência global aponta para uma presença cada vez maior das motorizações eletrificadas.
O preço de utilização ganha importância na escolha do automóvel
O custo de utilização influencia a escolha
Durante muito tempo, os incentivos governamentais foram apontados como um dos principais fatores por detrás do crescimento dos veículos elétricos. Contudo, o custo de utilização continua a ser um argumento importante para quem pondera trocar um automóvel a gasolina por um modelo elétrico.
A possibilidade de carregar em casa, especialmente durante os períodos em que a eletricidade é mais barata, pode representar uma poupança significativa face ao abastecimento com gasolina. A manutenção também tende a ser mais simples nos automóveis elétricos, que dispensam operações como a mudança de óleo do motor e têm menos componentes mecânicos sujeitos a desgaste.
Naturalmente, a poupança depende de vários fatores, incluindo o preço da eletricidade, o custo de carregamento público, os quilómetros percorridos e o preço de aquisição do veículo.
A autonomia, o tempo de carregamento e a disponibilidade de postos continuam igualmente a influenciar a decisão de compra. Ainda assim, a chegada de novos modelos e a evolução da tecnologia das baterias estão a contribuir para tornar os elétricos uma alternativa cada vez mais relevante.
O que poderá mudar até 2030?
Apesar da quebra de quota dos automóveis exclusivamente a gasolina, a transição está longe de estar concluída. Segundo os dados citados, os veículos totalmente elétricos representam atualmente cerca de 17% das vendas mundiais de automóveis novos, enquanto os modelos a gasolina mantêm uma quota de 49%.
A diferença continua a ser considerável, mas a evolução dos últimos anos mostra que a composição do mercado está a mudar.
As previsões do setor apontam para um crescimento adicional da mobilidade elétrica até ao final da década, impulsionado pela redução dos custos das baterias, pelo aumento da oferta e pela chegada de modelos mais acessíveis. A possibilidade de encontrar mais automóveis elétricos em segmentos de preço entre os 20 mil e os 25 mil euros poderá também alargar o número de consumidores interessados nesta tecnologia.
Ainda assim, o ritmo da mudança dependerá da evolução dos preços, das políticas públicas, da infraestrutura de carregamento e das necessidades dos condutores em cada mercado.
Uma coisa é clara: os automóveis exclusivamente a gasolina já não concentram a maioria das vendas mundiais. Os híbridos e os elétricos estão a conquistar espaço e a obrigar os fabricantes a adaptar as suas estratégias.
A transição para a mobilidade eletrificada poderá não estar a decorrer exatamente ao ritmo inicialmente previsto, mas os dados apresentados revelam uma mudança estrutural na indústria automóvel. E, pela primeira vez em cerca de 100 anos, a gasolina deixou de ser a escolha maioritária dos compradores de automóveis novos à escala mundial.
AutoGear · 708 artigos
Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).