O seu carro já tem tecnologia para impedir o excesso de velocidade. Só falta a autorização

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GPS, câmaras e geofencing já estão presentes em muitos automóveis. Falta apenas uma decisão: permitir que o carro impeça fisicamente o condutor de ultrapassar a velocidade máxima. Imagine carregar no acelerador numa estrada com limite de 50 km/h e o carro simplesmente não responder depois de atingir essa velocidade.

Não é ficção científica. A tecnologia necessária para tornar isso possível já existe e está, em diferentes formas, instalada em muitos automóveis modernos. GPS, câmaras, mapas digitais, aceleradores eletrónicos e atualizações de software à distância permitem que um automóvel saiba onde está, qual é o limite de velocidade e até em que tipo de zona se encontra.

O próximo passo poderá ser fazer com que o próprio carro impeça o condutor de ultrapassar esse limite.

E há quem defenda que isso poderá tornar-se realidade nas próximas décadas.

O carro sabe onde está e qual é o limite

A ideia passa pelo chamado geofencing, uma tecnologia que permite definir determinadas funções de um veículo em função da sua localização. Na prática, o automóvel utiliza GPS e informação digital sobre a estrada para reconhecer que entrou numa determinada área e alterar automaticamente o seu comportamento. Esta tecnologia não é propriamente nova.

Mercedes-Benz, BMW, Toyota e Ford já utilizaram sistemas de geofencing em alguns modelos híbridos plug-in para ativar automaticamente o modo elétrico quando o veículo entra em zonas de baixas emissões.

A Volvo também já recorreu a soluções semelhantes para limitar a velocidade de determinados veículos comerciais dentro de áreas específicas. Até aqui, porém, estamos a falar sobretudo de funções relativamente simples.

A verdadeira revolução seria utilizar o mesmo princípio para controlar a velocidade máxima do automóvel.

E se o carro simplesmente não deixasse acelerar?

É exatamente essa possibilidade que o professor Marco te Brömmelstroet, da Universidade de Amesterdão, considera possível. O investigador defende que, no futuro, o geofencing poderá ser utilizado para impedir eletronicamente que os condutores ultrapassem os limites de velocidade em determinadas zonas, sobretudo nas cidades. A ideia é simples. Se o automóvel entrar numa rua limitada a 30 km/h, o sistema reconhece a localização e estabelece automaticamente esse valor como velocidade máxima. O condutor pode carregar no acelerador, mas o automóvel não ultrapassa os 30 km/h. Ao sair da zona, o sistema identifica o novo limite e altera novamente o comportamento do veículo. Sem radares. Sem polícia. Sem necessidade de fiscalização física.

A Europa já deu o primeiro passo

A União Europeia já está a introduzir tecnologia que pode ser vista como um primeiro passo nessa direção.

Chama-se Intelligent Speed Assist (ISA) e já equipa os novos automóveis vendidos na Europa.

O sistema utiliza câmaras e dados de localização para reconhecer os limites de velocidade e alertar o condutor quando este circula demasiado depressa. Mas há uma diferença importante: o ISA ainda deixa a decisão final nas mãos do condutor. É possível continuar a acelerar depois do aviso.

Um futuro sistema baseado em geofencing seria muito mais intrusivo: em vez de avisar, poderia simplesmente impedir que o veículo ultrapassasse o limite definido.

Adeus às multas por excesso de velocidade?

À primeira vista, as vantagens são óbvias. Se nenhum automóvel pudesse ultrapassar eletronicamente o limite de velocidade, seria muito mais difícil cometer infrações por excesso de velocidade. Os defensores da tecnologia acreditam que isso poderia reduzir acidentes e tornar as cidades mais seguras para peões e ciclistas. E haveria outra consequência: a fiscalização poderia deixar de depender tanto de radares e câmaras. Um automóvel equipado com este sistema teria permanentemente consigo a informação necessária para cumprir os limites. Mas é precisamente aqui que começam as dúvidas. O problema não é a tecnologia. São os condutores. A questão mais complicada não é saber se é tecnicamente possível fazer isto. É saber se queremos fazê-lo. Um carro que avisa que estamos a exceder o limite continua a deixar-nos decidir. Um carro que corta eletronicamente a aceleração está a tomar essa decisão por nós. E isso levanta questões importantes.

Quem deve controlar o comportamento de um automóvel particular? O proprietário? O fabricante? O governo? E o que acontece quando os mapas estão errados ou quando existe uma alteração temporária do limite de velocidade?

Imagine uma estrada onde o limite passou de 80 para 50 km/h devido a obras, mas a informação disponível pelo sistema ainda não foi atualizada. Ou uma situação de emergência em que o condutor precisa de acelerar para evitar um acidente.

Um sistema que retire completamente essa decisão ao condutor teria de conseguir responder a todas estas situações.

Daqui a 20 anos pode parecer normal

Para Marco Brömmelstroet, contudo, a mudança poderá ser inevitável. O investigador imagina um futuro em que olharemos para a condução atual e acharemos estranho ter sido permitido aos condutores controlar livremente a velocidade de veículos que podem pesar duas toneladas dentro de cidades densamente povoadas. É uma visão radical, mas os componentes necessários já estão nos nossos carros. GPS, câmaras, mapas digitais, conectividade e software conseguem hoje fazer aquilo que, há poucos anos, parecia impossível. O que falta não é tecnologia. Falta decidir até onde estamos dispostos a deixar que o nosso próprio carro controle a nossa condução. E essa poderá ser uma discussão muito mais difícil do que construir o sistema.