O maior fabricante de automóveis do mundo acordou esta sexta-feira com uma conta para pagar que ninguém inveja. A Toyota divulgou as suas previsões financeiras para o ano fiscal que termina em março de 2027, e os números são uma leitura sombria do que acontece quando uma empresa de escala planetária se vê espremida entre duas forças externas ao mesmo tempo: as tarifas da administração Trump e as consequências económicas da guerra no Irão. O resultado esperado é uma queda de 20% nos lucros operacionais, que deverão cair dos 3,77 biliões de ienes registados no ano fiscal que acabou de encerrar para os 3,0 biliões de ienes, o equivalente a cerca de 19 mil milhões de dólares. Um número que ficou muito abaixo das previsões dos analistas, que esperavam 4,59 biliões de ienes.
O trimestre mais recente foi ainda mais brutal. A Toyota registou uma queda de 49% no lucro operativo do quarto trimestre, falhando as estimativas dos analistas com U.S. tarifas e a concorrência crescente das marcas chinesas a pressionar os resultados. O lucro operacional do período caiu para 569,4 mil milhões de ienes, comparado com os 1,1 biliões de ienes registados no mesmo período do ano anterior. Uma diferença que não admite eufemismos: quase metade dos lucros evaporou num único trimestre.
O conflito no Médio Oriente está na origem de um golpe financeiro que a Toyota quantificou com uma precisão que espanta pela sua dimensão. O impacto total da guerra do Irão ascenderá a cerca de 670 mil milhões de ienes, o equivalente a 4,3 mil milhões de dólares, no ano fiscal que termina em março de 2027, uma estimativa que supera a de muitas grandes empresas, incluindo companhias aéreas. O montante divide-se em duas parcelas igualmente pesadas: cerca de 400 mil milhões de ienes de custos mais elevados com materiais e combustível, e aproximadamente 270 mil milhões de ienes resultantes de volumes mais baixos e atrasos logísticos. A Toyota espera perturbações na cadeia de abastecimento devido ao encerramento do Estreito de Ormuz, efetivamente bloqueado em resultado da guerra, e as vendas de veículos da marca no Médio Oriente caíram também de forma significativa. O Japão importa praticamente todo o seu petróleo, grande parte do qual proveniente do Médio Oriente, e a utilização de rotas marítimas alternativas para contornar o Estreito acrescenta custos operacionais a toda a cadeia industrial.
As tarifas impostas pelo Presidente norte-americano Donald Trump representam o segundo fronte desta guerra em duas frentes. As tarifas reduziram o lucro operativo no ano fiscal que acabou de terminar em 1,4 biliões de ienes. É um número que, por si só, seria suficiente para dominar qualquer conferência de resultados de qualquer empresa do mundo. Na Toyota, este ano, é apenas parte de um problema mais complexo.
O momento não podia ser mais exigente para quem está no comando. Este é o primeiro conjunto de previsões divulgado pela Toyota sob a liderança do novo presidente executivo Kenta Kon, que assumiu funções no mês passado e enfrenta desde o primeiro dia o desafio de conduzir o maior fabricante automóvel do mundo através de uma tempestade com múltiplas origens simultâneas. Kon reconheceu publicamente a dimensão do desempenho registado no ano que terminou, elogiando a capacidade da empresa de entregar quase 3,8 biliões de ienes em lucro operativo apesar das turbulências verificadas no ambiente de negócios global.
No meio de toda esta pressão, há uma luz genuinamente brilhante nos resultados da Toyota. A procura por veículos híbridos mantém-se robusta, com as vendas esperadas a ultrapassar as 5 milhões de unidades pela primeira vez na história da empresa este ano. É a ironia cruel e elegante deste momento: a mesma guerra que está a destruir margens de lucro está simultaneamente a empurrar os consumidores para automóveis mais eficientes em combustível, exatamente o tipo de produtos em que a Toyota lidera o mercado mundial há décadas. O problema é que o aumento das vendas de híbridos não está a ser suficiente para compensar o impacto combinado dos custos energéticos mais elevados, das tarifas e das disrupções logísticas.
A Toyota declarou que adotou uma média de seis meses para os seus pressupostos de câmbio, em vez da média mensal habitual, devido à volatilidade atual, e fixou a sua taxa de câmbio assumida para o ano fiscal em 150 ienes por dólar americano. Em resposta ao ambiente de incerteza, a empresa anunciou uma reorganização dos seus modelos, um aumento da compra local de componentes e uma redução de custos estrutural. A promessa de se tornar uma empresa de mobilidade mais alargada, incorporando barcos, aviões, braços robóticos para reposição de prateleiras e dispositivos de transporte de equipamento médico, mantém-se no horizonte estratégico, mas o imediato exige foco total na resistência à tempestade presente.
O que os resultados da Toyota revelam esta sexta-feira vai muito além de uma empresa japonesa a gerir um ano difícil. São um sinal de alerta para toda a indústria automóvel global sobre o que acontece quando a geopolítica e a política comercial se cruzam com uma cadeia de abastecimento construída ao longo de décadas para um mundo que já não existe. A Volkswagen, pelo seu lado, já avisou esta semana que as tarifas representam um encargo de 5 mil milhões de euros por ano sobre o seu lucro operativo. A Toyota confirma hoje que a dimensão do problema é real, mensurável e sem solução à vista a curto prazo.




