Porsche recua nos elétricos? Macan a gasolina está de volta e o 911 continua a resistir
O essencial
- A Porsche prepara o regresso do Macan a gasolina em 2028, mantendo a versão elétrica em paralelo.
- O CEO Michael Leiters rejeita que a marca esteja a recuar nos elétricos, defendendo coexistência entre tecnologias.
- O 911 nunca será 100% elétrico e continuará com motor de combustão, embora com assistência híbrida.
A Porsche garante que não está a abandonar os carros elétricos, mas prepara o regresso do Macan a gasolina em 2028 e fecha definitivamente a porta a um 911 100% elétrico. A estratégia da marca passa agora por uma gama onde combustão e eletrificação vão coexistir. A Porsche está a mudar de rumo, mas não necessariamente de direção.
Depois de anos a acelerar a eletrificação da gama, a fabricante alemã prepara-se para voltar a apostar nos motores de combustão em alguns dos seus modelos. O exemplo mais evidente será o Macan, que terá novamente uma versão a gasolina a partir de 2028, comercializada em paralelo com a atual variante elétrica.
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Michael Leiters, CEO da Porsche desde janeiro, rejeita, contudo, a ideia de que a marca esteja a recuar nos veículos elétricos. Em entrevista ao Financial Times, o responsável defendeu uma estratégia mais equilibrada, na qual os motores de combustão e os sistemas elétricos coexistem durante os próximos anos.

“Acho que isso é injusto”, afirmou Leiters, quando questionado sobre a possibilidade de ser considerado cético relativamente aos veículos elétricos.
Para o CEO, a questão não é escolher entre gasolina ou eletricidade, mas garantir que a Porsche consegue oferecer aos clientes a tecnologia que estes efetivamente procuram.
O Macan vai voltar à gasolina
A mudança de estratégia ganha especial importância no Macan. Depois de a nova geração ter passado a ser exclusivamente elétrica, a Porsche prepara agora o regresso de uma versão equipada com motor de combustão. O novo Macan a gasolina deverá chegar em 2028 e será vendido lado a lado com o modelo elétrico.
A decisão surge num momento particularmente difícil para o mercado dos veículos elétricos. No primeiro semestre, as vendas do Macan elétrico caíram 40% face ao mesmo período do ano anterior, enquanto na China as entregas diminuíram 32%.
Para Leiters, estes números demonstram que a Porsche não pode apostar tudo numa única tecnologia.
“Temos de ter cuidado para garantir que a empresa não esteja a fazer um duplo investimento em gasolina e veículos elétricos no mesmo segmento de veículos”, explicou o CEO.
A estratégia passa, por isso, por escolher cuidadosamente onde faz sentido apostar na eletrificação e onde a combustão continua a ter procura.
Porsche quer travar os custos
A mudança não se limita aos motores. A Porsche está também a reduzir custos e a reorganizar a estrutura da empresa.
Leiters chegou a um acordo para reduzir cerca de 9.000 postos de trabalho até 2035 e decidiu encerrar as subsidiárias da Porsche relacionadas com bicicletas elétricas, baterias e software.
A empresa procura, desta forma, recuperar rentabilidade num período marcado pelo abrandamento da economia chinesa, pela pressão sobre o mercado automóvel e pelos elevados custos associados à eletrificação.
A margem operacional da Porsche chegou a cair para 1,1%, colocando ainda mais pressão sobre a administração para rever investimentos e prioridades.
A marca conseguiu também cerca de mil milhões de euros através da venda das suas participações na Bugatti Rimac e no Grupo Rimac.
A mensagem de Leiters é clara: a Porsche não está a abandonar os elétricos, mas já não quer investir neles a qualquer preço. O 718 será elétrico. O 911, não.
É aqui que a estratégia da Porsche fica particularmente interessante. Enquanto o Macan recupera os motores de combustão, o pequeno 718 continua no caminho da eletrificação. A próxima geração do Cayman e do Boxster está a ser desenvolvida com propulsão 100% elétrica.
A Porsche terá, assim, uma gama onde modelos semelhantes podem seguir caminhos tecnológicos completamente diferentes.
Mas há uma exceção absoluta: o 911.
Leiters voltou a confirmar que não haverá um Porsche 911 totalmente elétrico.
O icónico desportivo continuará ligado ao motor de combustão, embora a eletrificação já faça parte da sua evolução. A atual geração do 911 Carrera GTS, por exemplo, utiliza um sistema híbrido que combina o motor de combustão com assistência elétrica.
A Porsche não pretende, contudo, transformar o 911 num híbrido plug-in. A razão é simples: a marca não quer aumentar significativamente o peso e as dimensões do modelo para acomodar uma bateria maior e o restante equipamento necessário.
Um Porsche com duas tecnologias
A estratégia que está a ser desenhada por Leiters representa uma mudança significativa face ao entusiasmo com que a indústria automóvel avançou para a eletrificação nos últimos anos.
O futuro da Porsche não será exclusivamente elétrico nem exclusivamente a gasolina.
O Macan terá novamente um motor de combustão. O 718 avança para a eletrificação. O 911 mantém o motor de combustão e recorre à tecnologia híbrida. E outros modelos deverão seguir soluções diferentes consoante o segmento e a procura.
Para reduzir os custos de desenvolvimento, a Porsche deverá também recorrer cada vez mais à tecnologia disponível dentro do Grupo Volkswagen, em vez de desenvolver internamente todas as soluções necessárias para os seus futuros elétricos.
A marca parece, assim, estar a preparar uma gama muito mais flexível: elétrica onde fizer sentido, gasolina onde continuar a existir procura e híbrida quando essa solução conseguir juntar as duas tecnologias sem comprometer a identidade dos seus modelos.
E, no meio de toda esta mudança, há uma certeza: o 911 continuará a ser um Porsche com motor de combustão.
AutoGear · 537 artigos
Jornalista de automóveis, especializado em testes. É diretor da revista Comerciais & Pesados e o membro português do júri do International Truck of the Year. Editor dos sites da Revista Carros e Motores e da Revista Motos, e colaborador permanente do Jornal das Oficinas e da Revista dos Pneus, publicações de referência no pós-venda automóvel. Formado pela Universidade Autónoma de Lisboa. No AutoGear escreve sobre mercado, novidades e mobilidade elétrica.