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O camião elétrico já vai nos 720 km e prepara-se para desafiar o gasóleo nas longas distâncias

Publicado a 22 de Setembro de 2026, 16h00  ·  Atualizado a 22 de Setembro de 2026, 18h07  ·  5 min de leitura

O essencial

  • Camiões elétricos já atingem 720 km de autonomia com carregamento até 1,5 MW
  • MAN, Scania, Volvo, Tesla e BYD apresentaram soluções para transporte de longa distância
  • Infraestrutura de carregamento é crucial para competir com gasóleo nas longas distâncias

A nova geração de pesados elétricos já ultrapassa os 700 quilómetros de autonomia e pode carregar a potências de até 1,5 MW. MAN, Scania, Volvo, Tesla e BYD estão a acelerar uma transformação que pode mudar profundamente o transporte rodoviário europeu.

Durante anos, falar de camiões elétricos significava falar sobretudo de distribuição urbana e percursos relativamente curtos. Essa realidade está a mudar.

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Os últimos desenvolvimentos apresentados pela indústria mostram que os camiões elétricos estão finalmente a entrar no território dos grandes percursos, com autonomias que já chegam aos 720 quilómetros e sistemas de carregamento que atingem potências de megawatts.

A mudança ficou particularmente evidente na IAA Transportation 2026, em Hanôver, onde fabricantes tradicionais e novos concorrentes apresentaram soluções destinadas a operações que, até agora, estavam praticamente reservadas aos camiões a gasóleo.

E há uma conclusão cada vez mais difícil de ignorar: a tecnologia para eletrificar o transporte pesado de longa distância está a deixar de ser uma promessa.

720 quilómetros já são uma realidade

720 quilómetros já são uma realidade

MAN e Scania estão entre os fabricantes que elevaram a fasquia para os 720 km de autonomia homologada. Mais importante ainda, os seus camiões estão preparados para utilizar o Megawatt Charging System (MCS), tecnologia desenvolvida precisamente para resolver um dos maiores problemas do transporte pesado elétrico: o tempo necessário para recuperar centenas de quilómetros de autonomia.

Com carregamento de potência na ordem dos 1 MW, uma paragem que coincide com o período obrigatório de descanso do motorista pode passar a ter uma dupla função: cumprir os tempos de repouso e recuperar uma quantidade significativa de energia.

A Volvo também está a reforçar a sua oferta com o FH Aero Electric, que chega aos 700 km de autonomia e introduz ainda uma capacidade particularmente relevante para o transporte pesado, com possibilidade de operar com combinações até 80 toneladas, dependendo da configuração e regulamentação aplicável. Tesla chega à Europa, mas encontra concorrência A entrada da Tesla neste mercado europeu acrescenta outra dimensão à transformação.

O Semi chega finalmente ao mercado europeu com uma versão homologada para cerca de 550 km de autonomia. É menos do que os 720 km anunciados por alguns fabricantes europeus, mas representa a entrada de um dos projetos mais ambiciosos da indústria elétrica num mercado dominado há décadas por fabricantes tradicionais.

Nos Estados Unidos, o Semi já apresenta uma autonomia superior, com versões que ultrapassam os 800 km, mostrando também até onde poderá evoluir a tecnologia.

Na Europa, porém, a Tesla vai encontrar um mercado muito diferente e uma concorrência que já está bastante avançada. E essa concorrência também chega da China.

BYD quer repetir nos camiões a receita dos automóveis

A BYD apresentou em Hanôver o ETT 44, um camião elétrico de grande capacidade que anuncia cerca de 600 km de autonomia. Mas o interesse neste modelo vai além dos números.

A BYD tem demonstrado no mercado automóvel europeu que pretende competir através de tecnologia, escala industrial e preços agressivos. Agora, começa a aplicar a mesma lógica ao transporte pesado. A marca chinesa não está sozinha.

Fabricantes como SANY e MAXUS, esta última integrada no grupo SAIC, também marcaram presença em Hanôver, sinalizando que a ofensiva chinesa no mercado europeu já não se limita aos automóveis ligeiros. mEstá a chegar também aos camiões.

O verdadeiro desafio está fora do camião

O verdadeiro desafio está na infraestrutura

Apesar dos avanços tecnológicos, há uma questão que pode ser tão importante como a própria autonomia: a infraestrutura. Não basta ter um camião capaz de percorrer 600, 700 ou mais quilómetros.

É necessário que existam carregadores suficientemente potentes e estrategicamente colocados ao longo das principais rotas de transporte europeias. É aqui que o MCS pode assumir um papel decisivo.

Com potências que podem atingir 1,5 MW, estes sistemas foram concebidos para transformar as paragens dos camiões em períodos de carregamento extremamente rápidos.

Para uma empresa de transporte, isto é fundamental. Um camião parado representa capacidade de transporte que não está a gerar receita.

Por isso, a eletrificação das longas distâncias depende de duas evoluções que têm de acontecer em paralelo: camiões com maior autonomia e uma rede de carregamento capaz de os acompanhar.

O gasóleo já não tem o caminho aberto

A vantagem histórica do diesel nos camiões de longo curso sempre esteve na combinação entre autonomia, rapidez de abastecimento e uma infraestrutura praticamente universal. Os elétricos começam agora a atacar precisamente esses três pontos.

A autonomia está a crescer rapidamente. O carregamento está a passar dos centenas de quilowatts para a escala dos megawatts. E a rede de carregamento para pesados começa finalmente a expandir-se.

Além disso, a mecânica elétrica oferece binário instantâneo, elevada eficiência energética e menos componentes mecânicos móveis, características particularmente interessantes num veículo que pode percorrer centenas de milhares de quilómetros durante a sua vida útil.

O custo da energia será, naturalmente, determinante. Mas em determinadas operações, sobretudo quando a eletricidade pode ser adquirida a preços competitivos, o custo energético por quilómetro pode tornar-se uma vantagem importante face ao gasóleo.

A próxima batalha será pelo custo total

A próxima batalha será pelo custo total

É por isso que a discussão está a mudar. Já não se trata apenas de perguntar “quantos quilómetros faz um camião elétrico?” A pergunta passa a ser: quanto custa colocá-lo na estrada durante vários anos?

Preço de aquisição, custo da energia, manutenção, disponibilidade dos carregadores, tempo de paragem, capacidade de carga e valor residual vão determinar se a eletrificação consegue conquistar as grandes frotas.

Ao mesmo tempo, a pressão europeia para reduzir as emissões de CO₂ está a obrigar os fabricantes a acelerar o desenvolvimento de soluções de baixas emissões. O risco está na infraestrutura não conseguir acompanhar a velocidade da tecnologia.

A mudança já começou

Os 300 ou 400 quilómetros de autonomia que durante anos limitaram os camiões elétricos a determinadas operações estão a ficar para trás. Hoje, 700 quilómetros já fazem parte da conversa.

MAN, Scania e Volvo estão a elevar a fasquia, Tesla entra finalmente no mercado europeu e fabricantes chineses como a BYD começam a disputar também este segmento.

O camião elétrico ainda não substituiu o diesel nas grandes rotas. Mas a questão já não é saber se a tecnologia consegue chegar lá.

O verdadeiro desafio é construir a infraestrutura e criar as condições económicas para que essa mudança faça sentido para as empresas de transporte. E é precisamente nos próximos anos que se vai decidir quem ganha essa corrida.

Ficha técnica

Autonomia
720 km (MAN/Scania)
Autonomia
700 km (Volvo FH Aero Electric)
Autonomia
550 km (Tesla Semi, Europa)
Autonomia
800 km (Tesla Semi, EUA)
Autonomia
600 km (BYD ETT 44)
Carregamento
Até 1,5 MW (Megawatt Charging System)

Ricardo Carvalho

AutoGear  ·  467 artigos

Jornalista de automóveis, especializado em testes. É diretor da revista Comerciais & Pesados e o membro português do júri do International Truck of the Year. Editor dos sites da Revista Carros e Motores e da Revista Motos, e colaborador permanente do Jornal das Oficinas e da Revista dos Pneus, publicações de referência no pós-venda automóvel. Formado pela Universidade Autónoma de Lisboa. No AutoGear escreve sobre mercado, novidades e mobilidade elétrica.

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