A marca britânica já recebeu milhares de milhões de euros em apoios e acaba de ser expulsa do FTSE 250. O último financiamento de 635 milhões de euros deu-lhe tempo, mas ainda não convenceu os investidores.
A Aston Martin continua a ser uma das marcas mais desejadas do mundo automóvel, mas, para os investidores, o encanto parece estar a desaparecer rapidamente.
Desde a entrada na Bolsa de Londres, em 2018, as acções da fabricante britânica perderam mais de 99% do seu valor. Só este ano, a queda já ronda os 45%, numa desvalorização que levou a Aston Martin a ser retirada, a 2 de Setembro, do FTSE 250, um dos principais índices bolsistas britânicos.
É uma queda impressionante para uma empresa que, aquando da entrada em Bolsa, estava avaliada em cerca de 4,3 mil milhões de libras, quase 5 mil milhões de euros à época.

Prestígio não chega para pagar as contas
O problema da Aston Martin não está na falta de prestígio, nem na ausência de investidores poderosos. Desde 2018, a fabricante acumulou cerca de 2 mil milhões de libras de fluxo de caixa disponível negativo, ou seja, gastou muito mais dinheiro do que aquele que conseguiu gerar com a sua actividade.
Para manter a empresa em funcionamento, foram necessárias várias injecções de capital. Em 2020, Lawrence Stroll assumiu o controlo da Aston Martin, enquanto o fundo soberano saudita PIF e o grupo chinês Geely passaram também a ter posições na empresa. A Mercedes-Benz mantém igualmente uma relação financeira e tecnológica com o fabricante britânico.
Mesmo com uma gama composta por modelos como Vantage, DB12, Vanquish e DBX, os resultados continuam a não acompanhar o estatuto da marca. O problema é simples: construir automóveis extremamente caros não significa necessariamente ganhar dinheiro.
Produzir pouco custa muito
A Aston Martin enfrenta uma dificuldade estrutural comum a vários fabricantes de luxo: volumes de produção reduzidos e custos de desenvolvimento extremamente elevados.
Os investimentos necessários para criar novos modelos têm de ser distribuídos por um número relativamente pequeno de automóveis vendidos. A situação torna-se ainda mais complicada com o abrandamento do mercado chinês e o impacto das tarifas comerciais norte-americanas.
A pressão financeira já obrigou a empresa a tomar medidas dolorosas. Em Fevereiro, anunciou o corte de cerca de 600 postos de trabalho, aproximadamente 20% da força laboral.
Mais 635 milhões para ganhar tempo
A situação levou a Aston Martin a procurar novamente financiamento este Verão. A empresa garantiu até 550 milhões de libras, cerca de 635 milhões de euros, através de um grupo de investidores liderado pela HPS, divisão de crédito privado da BlackRock.
O acordo envolve, entre outras medidas, a cedência de parte dos direitos de exploração da marca Aston Martin fora do sector automóvel.
A operação permitiu reforçar a liquidez da empresa, mas também provocou desconfiança entre alguns credores, sobretudo porque parte dos activos do grupo foi utilizada como garantia para o novo financiamento.
Nem os credores estão tranquilos
O nervosismo dos mercados também é visível na dívida da empresa. Uma das obrigações da Aston Martin com vencimento em 2029 chegou a ser negociada por menos de 60% do seu valor nominal, quando em Junho ainda estava nos 82%.
Na prática, significa que os investidores estão dispostos a pagar menos de 60 por um título que deveria valer 100 no momento do reembolso. É um sinal claro de que o mercado considera elevado o risco associado à dívida da fabricante.
Ainda assim, isto não significa que a Aston Martin esteja à beira da falência.
As estimativas da CreditSights indicavam, no início de Agosto, que os 550 milhões de libras obtidos no novo financiamento poderão permitir à empresa evitar uma nova necessidade de capital até 2028.
A Aston Martin ganhou tempo. Agora precisa de resultados
A fabricante britânica conseguiu, mais uma vez, comprar tempo. Mas é precisamente aí que está o verdadeiro desafio. Depois de sucessivas recapitalizações, novos investidores e operações de financiamento, a Aston Martin precisa agora de provar que consegue transformar o seu enorme valor de marca em lucros sustentáveis.
A empresa continua a fabricar alguns dos automóveis mais exclusivos e desejados do planeta. O problema é que, para os investidores, isso deixou de ser suficiente.
A Aston Martin pode continuar a ser uma das marcas mais bonitas da indústria. Na Bolsa, porém, a beleza já não chega.

