Greve histórica na Hyundai: 40 mil trabalhadores param e exigem algo pouco comum na Europa

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A Hyundai está a enfrentar uma das maiores greves da sua história recente na Coreia do Sul. Cerca de 40 mil trabalhadores da fabricante e de empresas fornecedoras aderiram, esta sexta-feira, 21 de agosto, a uma greve geral que paralisou várias unidades de produção da marca.

O movimento acontece depois de várias paralisações parciais realizadas desde julho e já afetou a produção de cerca de 55.200 automóveis.

Mas há um detalhe particularmente curioso nas reivindicações dos trabalhadores: entre as exigências está o direito de continuarem a trabalhar até aos 65 anos. Uma reivindicação que, vista a partir da Europa, pode parecer surpreendente.

A maior greve dos últimos dez anos

As fábricas da Hyundai na Coreia do Sul praticamente pararam no dia 21 de agosto, naquela que é considerada a maior greve da marca no país em cerca de uma década.

O conflito laboral começou com várias paralisações parciais durante os meses de julho e agosto, depois de as primeiras negociações salariais entre a empresa e os sindicatos não terem chegado a acordo. Ao todo, as interrupções de produção já terão afetado cerca de 55.200 veículos.

Os trabalhadores pretendem obter garantias relativamente a vários temas, mas um dos principais motivos de preocupação está relacionado com o futuro dos postos de trabalho.

Robôs e inteligência artificial preocupam trabalhadores

Tal como acontece atualmente em vários setores industriais, a Hyundai está a acelerar a automatização das suas fábricas. Para os trabalhadores, esta evolução levanta uma questão inevitável: quantos empregos vão sobreviver à chegada dos robôs?

A preocupação não é apenas teórica. A Hyundai está a desenvolver robôs humanoides destinados às suas linhas de produção e a primeira implementação deverá acontecer em 2028, numa fábrica da marca nos Estados Unidos.

Mas os receios não se limitam às fábricas. Os trabalhadores administrativos também temem que a inteligência artificial venha a substituir algumas das suas funções.

Por isso, uma das principais reivindicações dos sindicatos passa por obter garantias de que os atuais postos de trabalho serão preservados a longo prazo. Estava ainda prevista uma manifestação em Seul, junto à sede da Hyundai, que deveria reunir pelo menos 3.000 pessoas.

Querem trabalhar até aos 65 anos

É aqui que surge uma das reivindicações que mais pode surpreender quem acompanha o tema a partir da Europa. Na Coreia do Sul, a idade de reforma obrigatória é atualmente de 60 anos. No entanto, a pensão de reforma só começa a ser paga aos 65 anos. Isto significa que existe uma diferença de cinco anos entre o momento em que muitos trabalhadores deixam obrigatoriamente de trabalhar e aquele em que passam a receber a pensão.

Como o subsídio de desemprego não é suficiente para garantir uma situação financeira confortável, os sindicatos defendem que os trabalhadores possam continuar a exercer a sua profissão até aos 65 anos.

Curiosamente, é precisamente o contrário daquilo que vimos em França nos últimos anos, onde as manifestações se centraram na contestação ao aumento da idade legal de reforma para os 64 anos.

Na Coreia do Sul, os sindicatos querem que a idade de saída do mercado de trabalho seja prolongada. A mudança já foi discutida pelas instituições do país e deverá avançar progressivamente, mas a previsão aponta para que só seja concretizada a partir de 2033. Os sindicatos querem antecipar esse prazo.

Também estão em causa os salários

A questão salarial é outro dos pontos importantes desta greve. Os sindicatos da Hyundai pretendem aumentar o valor dos prémios pagos aos trabalhadores. Atualmente, o bónus corresponde a 750% do salário base, mas as organizações sindicais querem elevar esse valor para 800%.

Os trabalhadores das empresas fornecedoras e subcontratadas da Hyundai têm ainda outra reivindicação: querem poder negociar diretamente com a fabricante as suas condições salariais.

É uma exigência que poderá aumentar ainda mais a pressão sobre a Hyundai, numa altura em que a indústria automóvel atravessa uma fase particularmente complicada.

Hyundai também enfrenta dificuldades nas vendas

O conflito laboral surge num momento pouco favorável para a Hyundai. A fabricante já admitiu que poderá não conseguir cumprir os objetivos de vendas globais definidos para 2026, num cenário em que a concorrência está cada vez mais forte.

As marcas chinesas têm vindo a ganhar terreno em vários mercados e a pressão sobre os fabricantes tradicionais é cada vez maior, obrigando-os a investir fortemente em eletrificação, automação e novas tecnologias.

É precisamente essa transformação que está agora a gerar uma parte importante do descontentamento entre os trabalhadores da Hyundai.

Por um lado, a empresa precisa de automatizar as suas fábricas e apostar na inteligência artificial para continuar competitiva. Por outro, os trabalhadores querem garantias de que essa transformação não será feita à custa dos seus empregos.

E, pelo menos para já, as duas partes continuam longe de chegar a um acordo.

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