Tendo comemorado em 2025 o seu 130.º aniversário, a Skoda conta com um legado bastante rico: testemunhou os primórdios do automóvel, resistiu a duas guerras mundiais, e a diferentes regimes políticos, sendo, hoje, um dos fabricantes bastante importantes do panorama global da indústria. Sendo a missão de preservar e compilar todos os dados de uma marca com um passado tão longo, frequentemente, acompanhada da descoberta de factos novos e inesperados.
O coordenador do Arquivo da Skoda em Mladá Boleslav, admite que é, precisamente, esse o caso no que toca ao fabricante checo, pois, além de ajudar a contar a sua história, o acervo documental permite, também, salvaguardar o futuro. Criado na década de 1950, e localizado no coração da empresa, é gerido profissionalmente, e contém materiais que ilustram o desenvolvimento da empresa, incluindo contratos de fundação e documentação interna (reuniões do conselho de administração, reuniões do conselho de trabalhadores, etc.), assim como fotografias, cartazes, e desenhos técnicos.
Aberto ao público, e a investigadores profissionais, na chamada Sala de Estudo, todos os materiais que compõem este arquivo estão acessíveis, exceto aqueles que não foram processados, os que são confidenciais, e os considerados classificados. A sua manutenção e organização é da responsabilidade de Lukás Nachtmann que, a par da sua equipa, cuida do património documental, suporte fundamental da coleção de veículos históricos.



Embora os automóveis, em si mesmos, sejam essenciais para contar o passado da marca, toda a documentação técnica e estatística tem um papel fundamental para preservar o histórico da companhia, exigindo condições ideais para resistir ao teste do tempo. Assim, o arquivo da Skoda inclui instalações de armazenamento isoladas e de última geração, com temperatura constante de cerca de 18° C, e humidade entre 40% e 60%, naquela que é uma condição essencial: abaixo de 40%, o papel seca e racha; e, acima de 60%, as bactérias e o bolor proliferam.
Formado na Universidade Carolina de Praga, Lukás Nachtmann especializou-se em História Checa Moderna e Contemporânea, ingressando na Skoda ainda jovem. “Quando estava a decidir que caminho seguir, dei algumas aulas, e, depois, encontrei um anúncio de emprego para gestor de arquivos. Candidatei-me e fui aceite. Por isso, desde abril de 1999, estou aqui. E, mesmo depois de 26 anos, continuo a descobrir coisas novas”, refere. Entre as suas atividades estão a preparação de exposições para museus, o fornecimento de documentação para reuniões do conselho, a organização de dias abertos, e a localização de documentos para vários eventos públicos, dentro e fora da República Checa.
O departamento também colabora estreitamente com a oficina de restauro do museu, além de responder a pedidos específicos de proprietários de automóveis clássicos, que “representam uma grande parte das nossas consultas. Podem precisar de ajuda com o restauro, e ou estão à procura de detalhes específicos do veículo, ou enfrentam problemas de registo, e precisam de uma declaração oficial para os centros de inspeção técnica”, explica Lukás Nachtmann. Esses documentos incluem detalhes como a data de produção do veículo, o local de produção, e, até mesmo, o tipo de rodas que montava originalmente.



“A maioria dos investigadores procura informações relacionadas com os seus veículos, e, normalmente, podemos ajudá-los online. Aqueles que pessoalmente nos visitam, por norma, necessitam de informações mais aprofundadas – autores de livros, por exemplo. Aqui, podem examinar os materiais em detalhe, e descobrir factos que podem não ser conhecidos, ou não estar datados com precisão”, complementa o responsável. O arquivo é bastante solicitado também por grupos ou clubes de adeptos e entusiastas da Skoda um pouco por todo o mundo: “temos um forte relacionamento com um museu privado da Skoda na Dinamarca, por exemplo”, acrescentando, ainda, que recebe muitos contactos do Skoda Tatra Club, da Austrália.
Mas as perguntas não se limitam aos automóveis. Muitas vezes abrangem História geral ou tópicos relacionados, incluindo mesmo, pedidos, mais pessoais. “Uma vez, fomos contactados por um homem chamado Wolfgang Amadeo Klement, do Brasil, que disse que os seus antepassados tinham emigrado da Boémia. Ele estava curioso para saber se poderia ser parente de Václav Klement. Infelizmente, tivemos de desapontá-lo – não havia nenhuma ligação familiar”, explica Lukás Nachtmann.
Porém, o arquivo não serve apenas para preservar a história, também desempenha um papel fundamental na preparação para o futuro: “Se alguém precisar de algo daqui a 100 anos, poderá encontrá-lo aqui”, assegura Lukás Nachtmann, para quem a digitalização tem, e terá, um peso decisivo. “Por um lado, estamos a digitalizar e a carregar documentos digitalizados com metadados na base de dados. Por outro lado, também estamos a construir um arquivo digital para registos criados digitalmente”.
Ainda assim, enfatiza a importância de manter cópias físicas; “Sabemos como é um pedaço de papel com mil anos de idade – sabemos que ele sobrevive, e que a escrita permanece legível. Mas não temos dados tão antigos. Não sabemos como o tempo afetará os meios de armazenamento atuais. Os formatos que usamos hoje ainda existirão daqui a 130 anos? E, se ocorrer uma migração – de hardware ou software –, esses documentos ainda terão a mesma validade legal e probatória?”, conclui.








