Bentley Torcal já percorreu mais de um milhão de quilómetros
O essencial
- O Bentley Torcal, primeiro elétrico da marca, percorreu mais de um milhão de quilómetros em desenvolvimento, incluindo testes a -38 ºC na Suécia e acima de 40 ºC em desertos.
- A tecnologia de Realidade Alargada (XR) permitiu criar uma representação digital completa do habitáculo antes de componentes físicos, otimizando o desenvolvimento.
- Mais de 90% dos componentes foram validados fisicamente, incluindo testes de encaixe, folgas e facilidade de manutenção.
- A bateria de 625 kg foi submetida a testes extremos: resistência ao fogo durante duas horas e impacto com projétil de aço a 160 km/h.
A Bentley está a revelar os detalhes do exigente programa de desenvolvimento do Torcal, o seu primeiro automóvel totalmente elétrico. Poucas semanas depois da apresentação do modelo, a marca britânica dá a conhecer o trabalho de engenharia realizado ao longo de vários anos, durante os quais protótipos e veículos de pré-série percorreram, em conjunto, mais de um milhão de quilómetros em diferentes regiões do mundo.
O programa incluiu testes em condições climáticas extremas, desde o frio intenso da Suécia, com temperaturas de -38 ºC, até ao calor de ambientes desérticos, onde os termómetros ultrapassaram os 40 ºC. Os ensaios decorreram também a altitudes superiores a 4267 metros, no Pikes Peak, no Colorado, nos Estados Unidos.
O objetivo é assegurar que o Torcal corresponde aos padrões de qualidade, conforto, requinte e desempenho associados à Bentley, independentemente das condições de utilização.

Realidade Alargada no desenvolvimento do habitáculo
Realidade alargada ajuda a desenvolver o habitáculo
Uma das principais inovações utilizadas no desenvolvimento do Torcal foi a aplicação alargada da tecnologia de Realidade Alargada (XR), que combina elementos físicos e digitais para criar ambientes virtuais interativos.
Através do XR Hub da Bentley, a equipa de validação de conceitos criou uma representação digital completa do automóvel, incluindo um habitáculo realista, posições de assento ajustáveis e comandos interativos.
Esta tecnologia permite aos engenheiros e designers avaliar a ergonomia e a interação dos ocupantes com o veículo antes de existirem componentes físicos. Dessa forma, é possível identificar problemas e aperfeiçoar soluções numa fase inicial, reduzindo o tempo de desenvolvimento e aumentando a flexibilidade do processo.
A Bentley considera que esta abordagem permite também melhorar a sustentabilidade do desenvolvimento, sem comprometer o conforto e a facilidade de utilização que pretende oferecer aos clientes.
Mais de 90% das peças foram avaliadas fisicamente
Validação física de mais de 90% das peças
Apesar da importância das ferramentas digitais, a validação física continua a ser indispensável. No caso do Torcal, mais de 90% dos componentes estavam disponíveis durante esta fase do desenvolvimento.
Os engenheiros puderam, assim, verificar o encaixe das peças, as folgas entre componentes, a facilidade de manutenção, a qualidade de construção e a interação dos utilizadores com os diferentes elementos do veículo.
A Bentley recorreu ainda à digitalização a laser para comparar os componentes físicos com os respetivos modelos digitais de conceção assistida por computador (CAD). Este processo permite identificar eventuais desvios numa fase precoce, facilitando a introdução de correções.
Foram igualmente realizados exercícios de montagem em sequência lenta, destinados a reproduzir as condições de produção e a validar os processos de montagem e os fluxos de fabrico antes do início da produção em série.
Software atualizado a cada seis semanas
O desenvolvimento da arquitetura elétrica e dos sistemas de software representa outro dos grandes desafios do primeiro elétrico da Bentley.
Três equipas especializadas trabalharam em conjunto nas áreas da arquitetura elétrica, integração de software e testes de validação, com o objetivo de garantir o funcionamento coordenado dos diferentes sistemas do automóvel.
Durante o programa de desenvolvimento, é criada uma nova versão integrada do software a cada seis semanas. Cada ciclo incorpora aperfeiçoamentos, novas funcionalidades e melhorias de desempenho, sendo posteriormente submetido a testes em laboratório e em veículos reais.
Este processo permite identificar e corrigir problemas de forma progressiva, assegurando que os sistemas elétricos e eletrónicos cumprem os requisitos de segurança, estabilidade e fiabilidade antes de avançarem para a fase seguinte.
Bateria enfrenta testes extremos de segurança
Bateria de 625 kg enfrenta testes extremos
A bateria de alta tensão é um dos componentes que exigem maior atenção no desenvolvimento do Torcal. De acordo com os dados divulgados pela Bentley, o conjunto pesa aproximadamente 625 kg e apresenta uma densidade energética superior a 180 Wh/kg.
Para proteger a bateria contra danos provocados por objetos ou obstáculos na estrada, o automóvel dispõe de um escudo de impacto em material compósito instalado na parte inferior do conjunto.
A marca desenvolveu também um programa de ensaios específico para verificar a resistência da bateria e garantir o cumprimento dos requisitos regulamentares de segurança aplicáveis aos veículos elétricos.
Entre os testes mais exigentes encontra-se um ensaio de resistência ao fogo que estabelece um requisito de duas horas sem propagação das chamas ou explosão na sequência de um incidente térmico.
A bateria é ainda submetida a testes de impacto na parte inferior. Num dos procedimentos, um projétil de aço com 30 milímetros de diâmetro e aproximadamente 111 gramas é lançado contra o invólucro a uma velocidade superior a 160 km/h, de forma a avaliar a resistência a impactos semelhantes aos que podem ocorrer durante a circulação.
O programa inclui também testes de corrosão por névoa salina e outras avaliações ambientais e de durabilidade.
Segundo a Bentley, o sistema integra várias camadas de proteção e monitorização destinadas a reduzir os riscos e a proteger os ocupantes. A conceção do veículo procura ainda assegurar o maior nível de proteção possível em caso de danos significativos na bateria.
Camuflagem começa a ser retirada
Antes da apresentação oficial, os protótipos e os veículos de pré-série do Torcal circularam com diferentes soluções de camuflagem, destinadas a esconder os detalhes do desenho exterior.
A Bentley utilizou revestimentos gráficos complexos para dificultar a identificação das linhas da carroçaria, bem como painéis temporários que ocultavam elementos específicos do design. A camuflagem foi sendo adaptada às diferentes fases do desenvolvimento e aos ambientes de teste.
Agora, à medida que o modelo se aproxima das entregas aos clientes, a marca começou a retirar esses elementos da frota de desenvolvimento.
O programa de testes do Torcal demonstra a dimensão do trabalho realizado pela Bentley para preparar o seu primeiro automóvel 100% elétrico. Para além do desenvolvimento do sistema de propulsão, a marca procurou validar todos os aspetos do veículo, desde a ergonomia do habitáculo até à resistência da bateria, com o objetivo de preservar os padrões de qualidade e requinte que caracterizam os seus modelos.
Ficha técnica
- Bateria
- 625 kg, densidade energética superior a 180 Wh/kg
- Escudo de impacto
- Material compósito na parte inferior da bateria
- Teste de resistência ao fogo
- Duas horas sem propagação de chamas ou explosão
- Teste de impacto da bateria
- Projétil de aço com 30 mm de diâmetro a 160 km/h
AutoGear · 739 artigos
Jornalista de automóveis desde o ano 2000. Iniciou o seu percurso na Motorpress Lisboa, onde escreveu em revistas como o Guia do AUTOMÓVEL, Auto Magazine e Veículos Comerciais. Escreveu ainda para o semanário Autohoje, onde se especializou em testes e reviews de automóveis.
Mudou-se para a Revista Carros & Motores em 2018, permanecendo até 2025. Em 2026 integrou a redação do Autogear, onde tenta dinamizar o site. É também diretor da "Revista" Comerciais & Pesados, um suplemento trimestral da "Carros & Motores" e o membro português do júri do International Truck of the Year (Camião Internacional do Ano).